segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Noite II

Limpando as lagrimas do meu rosto, eu tinha um lugar pra ir. Ele me esperava na mesa de bar e eu precisava encontrá-lo. Faltava apenas isso para eu ser sua, já que agora eu era minha novamente. Meu corpo formigava, minha cabeça girava, mas naquele momento, sim, tudo estava certo. Eu demorei tempo demais pra me livrar de todo esse ranço, gastei tempo com as pessoas erradas por ele; me perdi, me achei e perdi de novo; noites incontáveis tentando descobrir o que havia de errado comigo, sempre concluindo que não sabia mais amar. Hoje eu tinha certeza que sabia, mas precisava tirar o peso que carregava para poder andar livre por esse lugar novamente.
Nas cadeiras amarelas de uma marca de cerveja qualquer, ele estava ali sentado, lindo com seu cabelo enrolado que eu amava enrolar nos dedos. Ele tinha escolhido um local especial, e havia um feixe de luz em cima dele, como uma cena divina, quando o universo quer que você contemple algo bonito. "Tudo certo, universo, eu já tinha sacado" pensei.
Entrei um pouco atordoada e ele notou. "Tudo bem?" perguntou. Sorri sem responder. Ali era onde eu queria estar. E agora estava tudo bem, porque eu era livre pra ser sua. Nada mais ia me segurar e eu sabia disso. Estava ali pra me jogar e queria tanto que ele soubesse, mas não ousei falar nada. Deixei que o tempo dissesse, que minhas ações mostrassem. Eu finalmente estava pronta pra dar a cara a tapa de novo, sem muito cuidado, sem me preocupar porque eu sabia que aguentaria qualquer coisa dali pra frente. Eu me sentia eu mesma novamente, eu estava viva novamente. Ergui o copo que me esperava:
-A nós.
-A nós - ele respondeu.

Noite I

A noite já tomava conta da cidade e eu olhava pela janela as luzes piscando. Sempre que lembrava dele algo acendia dentro de mim, como uma chama de final de vela que teima em continuar queimando. Eu segurava com amor essa minha dor. Por que, depois de tanto tempo, eu continuava colocando lenha nessa fogueira que a tanto tempo já deveria ter se apagado? Me peguei em vários momentos questionando outras pessoas que insistem até hoje em me perguntar dele. "Sei la, seguiu a vida, assim como segui a minha" mentia pros outros e pra mim mesma. Me vesti, sem me importar com o que, peguei minha bolsa e a chave do carro, em direção a ele. Sabia exatamente onde encontrá-lo.
O caminho teria passado como um borrão não fosse por toda a ansiedade que eu vivia naquele momento. Faltava pouco pra essa chama se extinguir de vez e eu ansiava por isso fazia sete anos. Estacionei o carro, entrei pelos labirintos escuros daquele lugar. Subi a escada, por entre pessoas que estavam ali para se divertir, bebendo e rindo. Meu coração disparava e eu queria muito chorar, mas seguia firme segurando o mesmo choro de anos engolido. Depois de tanto chorar por ele, hoje eu choraria somente por mim e ainda não era o momento.
O localizei no meio de algumas pessoas e sem me importar com a sua conversa ou decoros sociais, comecei a falar, de maneira calma e clara, como eu tanto tinha ensaiado na minha cabeça, sem nunca conseguir dizer as palavras em voz alta realmente:
- Eu sempre quis saber o por quê de você ter me tratado tão mal, mas hoje, eu quero que você saiba que eu te perdoo. Eu me perdoo também. A gente era jovem demais, obstinado demais, faltou maturidade - olhando fundo nos seus olhos, eu pausei. Tentei sentir o que estava acontecendo em mim, mas estava tomada por um turbilhão de sentimentos e queria terminar minha fala. 
- Eu não vou nutrir mais nenhum sentimento, bom ou ruim, por você, mesmo que eu jamais consiga apagar o que aconteceu. Eu escolho não ter mais isso dentro de mim. Você passou. Eu só precisava dizer isso, desculpa interromper essa conversa.

Ele continuou parado me olhando. Acho que também acreditava que esse momento jamais chegaria. Sai pela mesma porta que entrei, sentei no carro e me permiti chorar, dessa vez por mim. Eu finalmente me sentia livre. 

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Dança

              Deitei na minha cama enquanto o sol se punha. Aquele mesclado de azul escuro e laranja me deixava melancólica. Fechei os olhos e pensei em você. Coloquei uma musica que me lembra você que é incrivelmente triste. Bem, pelo menos pra mim. Fica difícil dançar quando a gente gosta de alguém, mas dancei mesmo assim. Me mexia pelo quarto apertado, imaginando você e eu. Me atirei na cama, imaginando você ali do meu lado. Aquele clichê de “tinha tempos que não me sentia assim” fazia sentindo; eu gosto de você. Lembrei daquele dia, que a gente dirigia de madrugada. Olhava seus olhos, seu cabelo, o jeito que você sentava, tentando guardar a imagem como uma foto. Tivemos a ideia de ir para o aeroporto, ver os aviões decolarem e imaginar pra onde eles iam, quem estava dentro, o que estavam indo fazer longe dali. Chegamos lá e só tinham as estrelas no céu, nenhum avião, ninguém indo pra lugar nenhum, nem eu, nem você. Ficamos sentados, o tempo passando, num silêncio confortável, dividindo as divagações sem falar nada. Lembrei do bar que fomos, cheio de pessoas, mas no nosso mundo só existia nós dois. Cerveja, música, a gente dançou, riu, você me deu um beijo que poderia ter durado um milênio. Começamos a rir e dançamos mais. Na minha cama vazia, eu e as minhas lembranças de você, a musica tocando e uma névoa de melancolia no ar. Por onde será que você anda, hein? Olhando estrelas do outro lado do mundo ou na cidade do lado? Lembrei da ultima vez que te vi e como eu não tinha desejo de trocar de roupa, só pra permanecer com seu cheiro. Lembrei que entrei no elevador esses dias e seu perfume estava no ar. Vivi aquele momento surreal de expectativa, achando que você estaria na porta da minha casa, me esperando mexendo no celular e reclamando de alguma notícia do jornal, mas voltei pra realidade, entrei no meu carro e fui trabalhar com um gostinho amargo de vontade de te ver. 
             Abri os olhos e olhei pro teto branco, a musica tinha acabado e eu coloquei pra repetir. Iria repetir a noite toda se fosse pra lembrar de você. De como você é lindo, de como você faz meio coração bater meio em contratempo. Dancei mais uma vez sozinha e resolvi acabar com aquele baile da solidão, porque mesmo com você na cabeça, dançar sozinha é muito triste.



My Valentine – Fiona Apple

terça-feira, 25 de julho de 2017

Você e eu.


Você, que foi ou ficou, que vai e volta, que me liga e depois não responde minhas mensagens. Você, que me olha a festa inteira mas não se mexe um centímetro. Você, que faz mil planos e some. Você, que joga charme, consegue o que quer e vai viver sua vida. Você, esperto, que a idade calejou. Você, novinho, que achou que tinha encontrado a solução da vida, mas não viveu o suficiente para saber. Você, que tira minha roupa, mas tem zero interesse na minha verdadeira nudez. Você, que gosta de me ter do lado pros outros verem. Você, que eu quis do lado para os outros verem. Você, desejado por todas e desejando todas. Você, rockstar, too cool pro hype de amar. Você, que me ama e eu não amo. Você, que tem tudo a ver comigo, mas o timing não coincidiu. Você, que mesmo depois de anos, continua falando mal de mim, mas não perde uma oportunidade de me despir com os olhos. Você, que agora sai com uma mina nada a ver com você. Ou sei lá, talvez tenha. Você, com quem eu fantasiei o amor que eu quero. Você, que tinha a calma que eu precisava, mas não a loucura que me move. Você, que mesmo longe, não está longe o suficiente. Você, que não sabe nem mesmo quem você é. Você, cheio de potencial, mas totalmente perdido. Não se preocupe, estamos todos. Você, que até hoje, gosto mais da sua mãe do que de você. Você, que me dá preguiça.  Você, que eu me entreguei e fez eu desejar nunca mais repetir esse erro. Você, que eu não vejo mais. Você, que era amizade ou desejo? Você, pra quem eu quero me entregar. Você, que eu morro de saudade. Vocês, pra quem eu dedico meus escritos. Você, que eu ainda não encontrei.


Vocês. E eu.

domingo, 20 de novembro de 2016

Maldade

Eu na rua, as 4h da manhã. Você recém chegado da rua, em casa. "Vem pra cá, eu quero te ver, quero ficar com você", sabendo que eu não resisto, é óbvio que fui. Entrei na sua sala escura, bêbada como de costume, você na porta me olhando. Olho pro seu rosto e mais uma vez seus olhos verdes me algemam. Por entre suas coisas, entro seu labirinto, com destino certo: sua cama. Jogo o salto num canto, quero tirar o vestido sujo de bebida e com cheiro de festa pra me vestir de você. "Me dá uma camiseta?" e sem cerimônia tirei o vestido. Te olhei só de calcinha, te testando, como sempre. Apesar de você ser arrogante, eu sempre te intimidei com a minha atitude de não ligar pra nada, de não ter vergonha de me despir, tanto de roupas quanto dos meus pensamentos. Você me deu a camiseta, meio atordoado, mas sem perder a pose e chance de já me tocar. Deitei na cama e disse que tava cansada. Você não perdeu tempo e percorreu minha perna com sua mão, me fazendo relaxar. Me virou, fazendo carinho nas costas, meu ponto fraco. No meu primeiro suspiro, você sabia que era a hora, se deitou em mim, olho no olho, seu corpo pesado. Meu deus, como eu senti falta disso. Tirou a camiseta e eu também. Deitado entre as minhas pernas, depois de ter te procurado em vários outros corpos nesses meses, eu finalmente te achei. Tem algo inexplicável em você, que me traz sempre de volta. Sua destreza pra me guiar exatamente onde quero ir, parece que você tá dentro da minha cabeça. E aí eu me entrego, você totalmente no controle, bagunçando minha cabeça e dominando meu corpo. 
Satisfeitos, você deitou e me abraçou. Tenho que admitir, carinhoso você sempre foi, mesmo quando não tem que ser, mesmo quando a gente tava só pela maldade, como hoje. Não sei se é bom ou ruim, só que no final isso sempre fode comigo, esse seu carinho que me puxa e depois me larga. "Eu não sei o que eu quero, eu sei que eu gosto de você, sinto sua falta" você disse. Com a cabeça a milhão, mesmo cansada, te falei tudo que eu penso sobre nós dois, sobre você, sobre mim. Jogando tudo pra fora, na intenção de me fazer entender que não existe mais nós dois. Juntei minhas coisas e disse que ia embora e você me pediu pra ficar. "Quero dormir com você". Você sabe como me segurar, mas mesmo invadindo toda a minha razão, meu coração calejado de porrada me disse que não queria apanhar de novo. "Não. Eu volto outro dia". O mundo rodava, mais pelo o que a gente tinha acabado de viver do que pelo álcool. Tentei andar em linha reta, tropeçando um pouco nos pensamentos, segui e entrei no carro. 
Eu volto, pra me desmanchar na sua cama, meu eterno cativeiro, olhando no seu olho, tentando entrar no seu coração e na sua cabeça, sem sucesso, tudo pra me perder de novo.

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Interfone

Cheguei em casa, mais ou menos dez da noite, cansada depois de 12 horas de trabalho. Tirei a roupa, tomei um banho, esquentei uma sopa. Fazia frio. Liguei a TV e deitei na minha cama, com o prato de sopa na mão, um pouco desanimada até mesmo pra comer, de tanto cansaço. O interfone tocou e eu assustei. Aquela merda passou quase um ano sem funcionar, tinha recentemente arrumado, não sabia nem como era o seu som. Fiquei um tempo parada, pensando que diabo era aquela barulho. Levantei um pouco atordoada, olhei pra parede, identificando de onde vinha o som. “Quem é o filho da puta que tá me ligando as 11 da noite...” pensei. Atendi:

-Alô.
-Oi, sou eu.
-Ah, oi. Fala.
-Abre aqui pra mim.
-Eu acabei de chegar em casa, to de pijama, um prato de sopa esfriando, to cansada. Não vai rolar.
-Eu te trouxe aquele café que tu gosta.
-Meu... Café as 11 da noite? Amanha eu tenho que estar de pé as 7. Não vou conseguir dormir se tomar café...
-Eu te trouxe outra coisa também.
-...
-Desce aqui pelo menos pra gente conversar...
-Tá.

Desci de pijama, só enfiei um blusão por cima. Tava frio pra caralho na rua e a minha rua era especialmente fria. Coincidências... Entrei no elevador sem saco. Abri a porta. Ele tava do lado de fora, com cara de cachorro de rua, pedindo pra entrar. Peguei minhas chaves e abri.

-Tu pegou as minhas chaves de volta, por isso não subi direto.
-Esse é exatamente o motivo pelo qual eu peguei tuas chaves. Tu não tinha que estar trabalhando?
-Pedi folga do bar hoje. To meio sem saco.
-Mas tu precisa da grana né... Como que tá a casa nova?
-Vazia. Mas paciência, tu me mandou embora...
-Foi melhor assim.

Ele me olhou, inclinou pra um beijo. Eu virei o rosto.

-Tá, me fala logo o que tu quer, eu preciso subir, quero comer, dormir, descansar. Alguns de nós trabalham, sem escolha de ficar de saco cheio.
-Por que tu tá assim? Tão fria? Eu ainda te amo sabe. Sinto tua falta todo dia. Quero ver os gatos, quero dormir contigo.
-Eu e tu... não dá mais... tu sabe disso. Chega de aparecer aqui em casa de noite... Não dá.
-Te trouxe esse imã de gato.
-Tu tá me escutando?
-To. Eu vou pra casa. Mas eu vou voltar aqui, eu não vou desistir assim. Me da um abraço.
Ele levantou, me puxou pra um abraço.

-E para de emagrecer. Tu vai ficar feia magrela.
-Aham.

Me desvencilhei, abri a porta pedindo pra ele sair com o olhar.

-Tchau, dorme bem – ele disse com um sorriso no rosto.

Subi me sentindo uma louca. Será que eu não falei nada? Será que ele tá surdo? Será que nunca vou conseguir terminar isso? Entrei em casa e cortei o fio do interfone. Nas semanas seguintes ele me mandou mensagem, ligou. Não respondi, não atendi. Um mês depois, vi ele de longe, num bar da minha rua. Ele me viu e virou a cara. Finalmente tinha terminado, mas eu estava triste. As coisas na vida as vezes têm que ser feitas de maneira drástica. Infelizmente.

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Verde


Tinha apenas uma meia luz e eu um copo na mão, o quinto da noite. Mas era cedo, umas três da manhã, e eu queria ficar mais anestesiada. O lugar estava cheio de gente e, pela bebida ou pelo meu estado de espírito, tudo se movia em slow motion. Meus amigos rindo, pessoas se beijando, um casal não muito longe brigando, gente dançando e eu, encostada na parede, absorta no meu mundo, no que eu sentia naquele momento. Entrei pra ouvir a música mais alto, sozinha. Estava escuro, as luzes piscavam, tinha um monte de gente, mas eu fechei os olhos e me imaginei sozinha. Achei um canto e fiquei escutando a musica com atenção, contando os beats como se viessem do meu peito. Senti um arrepio na nuca, como quando a gente pensa que tem um fantasma nas nossas costas. Abri os olhos e ele estava na minha frente, na parede oposta a que eu estava, dois olhos verdes, gigantescos, me olhando, estático. Olhei de volta, estática também. Ele atravessou todas as pessoas, envolvidas nos seus mundos, nem percebendo o que estava acontecendo entre nós dois. Pensei em sair correndo, mas não consegui me mexer. Ele chegou bem perto e eu pude perceber como seus olhos eram realmente lindos, um olhar que eu nunca vi antes na vida, que faz a gente refém. Que me fez refém. Me senti um pouco mais bêbada ao perceber o verde mais de perto. Não resisti, estava realmente desarmada enquanto ele tinha todas as armas estampadas em seu rosto. Foi devagar, chegando cada vez mais perto, quase encostando na minha boca. Fechei os olhos de novo e o copo caiu da minha mão. Senti toda a anestesia que buscava. Passei a mão na nuca dele, com a ponta dos dedos, descendo pras costas, abrindo minhas unhas, tentando tirar um pouco de pele, mesmo tendo a camiseta por cima. Aquele beijo pareceu durar horas, mas durou só alguns minutos, porque a música ainda era a mesma. Eu podia ficar pra sempre naquele momento, sentindo sua boca, sua língua, seus dentes mordendo de leve meu lábio, sua mão no meu cabelo, com tanta gentileza, mascarando o que sua boca me pedia. Abri os olhos e ele não estava mais lá. Olhei em volta e nada. Eu sonhei acordada? Virei pra sair e uma amiga falava comigo, mas eu só via a boca dela mexer, não escutava nada mais, nem a música. Eu não sentia mais nada. Paguei minha conta e fui embora. Quem sabe quando eu chegar em casa eu sonhe de novo com ele. É tudo que me resta.


Technicolor Beat - Oh Wonder