sexta-feira, 6 de julho de 2018

Risca faca

Coloquei aquela música que a gente gosta ironicamente, servi um copo com o whiskey que você deixou aqui, ascendi um cigarro, imaginei você me desaprovando balançando a cabeça, e deitei. Olhei pro teto e pensei na falta que você faz. A cama arde no pedaço que cabe você, o peito dói no lugar que você deita. Sei que você pensa que já passei por isso varias vezes, mas cada pedaço do meu coração é único e o lugar que você conquistou é só seu. Lembrei da sua mania de antagonizar e incomodar pelo mero prazer de fazê-lo, ri sozinha. Você é único. Meu coração cansado de baile, escolheu dançar justamente com você que não tem ritmo, que não consegue nem dois pra lá e pra cá. Me pergunto por quê a vida é tão doida e coloca pessoas assim no caminho da gente, totalmente diferente do que a gente imaginava e mesmo assim a gente teima em buscar o ritmo. Dou um trago, tusso um pouco, lembrando daquele final de semana digno de Instagram que a gente nem se importou em documentar. Os únicos registros são aqueles que a gente manda um pro outro e ri junto, tentando diminuir a distância. Você foi embora e em breve eu vou também e isso me dói. Você chama de mimimi e eu chamo de paixão. Você põe o pé no chão e eu pulo lá no céu, tentando ficar numa nuvem que sustente o peso do que eu sinto por você. Incrivelmente, me mantenho lá no céu, do ladinho daquela lua linda e amarela, sentada, curtindo tudo que essa paixão risca faca me faz sentir. Bebo mais um golinho do meu bourbon e sinto o gosto da sua boca. Apagar fogo com álcool e brasa não da certo, eu já sei, mas mesmo assim insisto. Em breve vou te ver de novo, passar a mão no seu cabelo e dizer que você não sabe amar toda vez que você insistir em me contrariar. Meu coração respira aliviado, mais um gole e mais um trago, viro pro lado e largo o copo, tentando achar o ritmo até a música acabar. 

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

2am

Sentada numa mesa cheia de amigos, chorando pra mim sobre como tudo terminou, enquanto eles me falam sobre trivialidades, só penso o quanto sinto sua falta. Cansada, no final da noite, entro no carro, ligo o som no máximo, abro a janela, as ruas da cidade vazia, todas as luzes dos prédios apagadas, ascendo um cigarro e lembro do seu sorriso. Você me magoou pra caralho, mas por que será que só consigo lembrar do brilho dos seus olhos? Chego em casa, olho minha cama vazia, fecho os olhos e me imagino de frente sua cama, você deitada me esperando, sinto seu abraço. Abro os olhos e só vejo meus travesseiros e um vazio que me dói. Eu sei que tudo isso passa com o tempo, mas eu não quero que esse sentimento saia do meu peito. Meu coração pula ao lembrar de você e eu só queria te encontrar, olhar pro seu rosto e ver aquela feição familiar de “tá tudo certo, to contigo” que só você tem. O ressentimento queima, mas a saudade abafa o fogo. Escovo os dentes lembrando das nossas escovas iguais marcadas pra gente saber qual é qual, mesmo confundindo elas todo final de noite. Eu penso “passa a mão nas minhas costas” e é como se sua mão estivesse aqui. Nem sinal de você nesses dias, meu rosto no espelho cheio de maquiagem como se eu fosse sair e te ver. Mas eu não vou, pelo menos não hoje. Nananana, off I go.



Bad Sun - Off She Goes

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Last Night

Sua pele macia, nós duas em sincronia perfeita, um beijo macio e quente dentro do elevador. Entramos no seu apartamento no mesmo passo, você entrou primeiro, meus pés formigando de ansiedade. Eu entrei, larguei a bolsa no chão e comecei a tirar a roupa.  Queria um banho para tirar a noite do corpo e estar pronta para me cobrir de você, mas hesitei. Sentei na cadeira, acendi um cigarro e esperei você sair do banheiro. Seu rosto branco, olhos como chamas cor de ouro, seu cabelo colorido contra a luz. Percorri a mão pelo seu pescoço, trazendo você mais para perto, encostei a boca na sua e senti sua respiração. Talvez você estivesse bêbada e eu também, mas não era o high que me deixava em êxtase. Era tudo seu. Seu corpo perfeito, vestido em roupas pretas que eu queria rasgar e jogar no chão faziam uma sombra na parede junto ao meu, como se fossemos uma só. Passei as mãos pelos seus quadris e enfiei-as debaixo da sua camiseta surrada, como tinha costume de fazer. Sua pele fria, esperando por mim para ficar quente era um desafio o qual eu não podia recusar. Puxei sua camiseta acima da sua cabeça enquanto de dava um beijo demorado. Tudo que eu tinha dentro de mim, investido em um beijo de final de noite. Eu pensava se valia a pena investir tanto de mim, enquanto meu coração dizia “só vai”. Começamos a caminhar em direção da cama, eu tirando minhas roupas, sem esperar por você, como tenho mania de fazer. Você sentou, meu pegou no colo, já com o peito nu, sentindo o seu, passando a mão em meus cabelos emaranhados da noite com uma delicadeza que eu nunca havia visto antes. Com a mão por trás da minha cabeça, me deitou em seu travesseiro, aquele do cachorro, continuando a me beijar com o gosto que só você tem. As luzes do seu apartamento piscavam como se fosse Natal. Suas mãos percorreram meu rosto, contornando a linha do meu maxilar, descendo para o tórax. Você tirou as minhas meias ridículas de abacate, meu short, percorreu minhas coxas e me abraçou. Eu senti que estávamos juntas, independente do que acontecesse. Poderia um meteoro cair ali, eu estaria segura em seus braços. Deitamos, rostos frente a frente, eu olhando fundo em seus olhos, como se fosse a minha ultima cena. Você olhou fundo nos meus olhos também. Não sei o que passava na sua cabeça, mas eu só pensava que poderia te amar mais do que qualquer um. Passei a mão no seu rosto, você continuava com a pele fria como de costume. Puxamos a coberta e nos abraçamos. Se eu pudesse escolher um momento para congelar no tempo, seria esse.

As seis da manhã, com a ressaca da noite anterior batendo no meu crânio com força, te olhei serena dormindo. Não sei com o que você estava sonhando, mas eu esperava que fosse comigo. Levantei, coloquei minha roupa e peguei o que me pertencia ao meu alcance. “Menos coisas para vir buscar depois”, pensei. Te olhei uma última vez, beijei seu rosto e fui embora. Ao entrar no carro, eu não queria acreditar que essa tinha sido nossa última noite. Ainda não quero.

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Tudo meu

E aí eu ouvi um barulho de pingos na minha janela e uma tempestade se formou lá fora, igual a que estava dentro de mim. Abri a janela e deixei a chuva molhar tudo. Ascendi um cigarro e vi meu quarto sendo tomado pela tempestade. Eu que queria destruir tudo, mas não tinha coragem. Nada disso era dela, era tudo meu. Sentei na cama molhada, tomei um gole da coca sem gás e contemplei o que eu tinha naquele momento: melancolia, igual ao dia armado na minha janela. Moro de frente a um prédio e algumas pessoas passavam nas janelas. Me vendo sentada de perna cruzada contemplando meu caos particular alagado, devem ter pensado que eu sou louca. Foda-se. Sortudo são eles que pegaram um pequeno momento da minha loucura sempre contida escapando. Eu sou boa demais em fingir sanidade e serenidade, apenas dois dos meus mecanismos de defesa. Queria eu ter a coragem de por tudo pra fora, chorar e gritar, dizer que vou embora pra quem eu mais amo, só pra ver se alguém me ajuda a sair do turbilhão da minha própria cabeça. Não liguei musica nenhuma, ouvi apenas uma sirene irritante que tocava na rua, o barulho dos carros molhando a calçada, a chuva ainda batendo em um dos vidros fechados. Sentia falta de ar, o peito apertar, mas nada disso era dela. Era tudo meu. Queria fugir, escapar, mas nada disso era dela. Eu queria era ir com ela. Ela que deveria estar fazendo o mesmo que eu, só que com um pouco mais de verdade. Meu cru só refletia no espelho e quando eu o via, corria rápido e botava numa caixa no fundo do peito. Talvez por isso eu quisesse desesperadamente ajudar quem se sente assim. Mas é tudo meu. Sempre foi tudo meu. E tinha tempo que eu não falava de mim.

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Efeito Colateral

Fui até o aeroporto pra ver as luzes da cidade. Os pontos laranjas brilhosos piscando me dão um pouco de paz em momentos como esse. Meus olhos cheios de lágrimas que há tempos tentavam sair. O choro engasgado tomava conta da minha garganta em forma de grito, finalmente alforriado. Meu peito parecia pesado e não era efeito colateral do remédio novo. Desde que te vi eu sabia que meu coração seria vidro repousando na ponta da estante, prestes a cair e estilhaçar em mil pedaços. De qualquer maneira, é o preço que a gente paga por se apaixonar sem se segurar, e assim, dito e feito, dentro do meu carro, eu catava os cacos que tinham sobrado. A noite era escura, poucos carros passavam por mim. Eu poderia estar num lugar lotado e me sentir exatamente como naquele instante: sozinha. Tentava refazer os passos que me levaram a aquele momento: a estrada, meu copo de cerveja, as mensagens, os telefonemas, os gestos que eu não percebi, os olhares desviados, os beijos não dados. Fazia uma conta matemática que simplesmente não fechava, não fazia sentido. Nenhum avião decolando pra que eu imaginasse estar dentro e mesmo assim eu já me sentia distante, da realidade, dessa cidade, de você, e isso doía tanto que eu sentia em cada pedaço do meu corpo preso nesse presente que eu queria escapar. Meus olhos continuavam cheios, meu peito vazio e apertado, minha mente desesperada sem conseguir raciocinar direito. Continuei olhando as luzes, sentindo os efeitos colaterais de você.

domingo, 22 de outubro de 2017

Cor

A luz azul em contraste com a vermelha iluminavam seu apartamento indiretamente. Algumas coisas espalhadas pelo chão, algumas em caixas, uma plantinha pequena e tímida em cima da mesa. O projeto de árvore,  curiosamente, era da felicidade, aqueles nomes que a gente dá pra coisas projetando nossos anseios mais internos. A cama era o que mais chamava atenção, grande, convidativa, onde você fazia praticamente tudo. Entrei com o cuidado de elefante que eu tenho, não só no seu apartamento, mas na sua vida, enlouquecida para virar uma só com você. Um espelho grande, roupas pelo chão, seus quadros, você em cada pedaço, mostrando que não tinha nada de impessoal aquele apartamento recém alugado. Tentando decorar cada pedaço da sua toca quadrada, eu tentava decorar cada pedaço da sua alma sem forma, brilhante e linda, como um faixo de luz que ilumina o mundo inteiro. Você não é azul, é o arco-íris inteiro e todas as nuances dele. Seu olho marrom-dourado, sua pele branca, sua mente vermelho-fogo, sua luz dourada, sua alma azul-profundo. Todas as cores que eu queria pra tirar meu mundo do cinza. Acordei do meu devaneio quando ouvi sua voz dizendo “deita aqui comigo”. Deitei e de repente meu mundo se encheu de cor.

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Noite II

Limpando as lagrimas do meu rosto, eu tinha um lugar pra ir. Ele me esperava na mesa de bar e eu precisava encontrá-lo. Faltava apenas isso para eu ser sua, já que agora eu era minha novamente. Meu corpo formigava, minha cabeça girava, mas naquele momento, sim, tudo estava certo. Eu demorei tempo demais pra me livrar de todo esse ranço, gastei tempo com as pessoas erradas por ele; me perdi, me achei e perdi de novo; noites incontáveis tentando descobrir o que havia de errado comigo, sempre concluindo que não sabia mais amar. Hoje eu tinha certeza que sabia, mas precisava tirar o peso que carregava para poder andar livre por esse lugar novamente.
Nas cadeiras amarelas de uma marca de cerveja qualquer, ele estava ali sentado, lindo com seu cabelo enrolado que eu amava enrolar nos dedos. Ele tinha escolhido um local especial, e havia um feixe de luz em cima dele, como uma cena divina, quando o universo quer que você contemple algo bonito. "Tudo certo, universo, eu já tinha sacado" pensei.
Entrei um pouco atordoada e ele notou. "Tudo bem?" perguntou. Sorri sem responder. Ali era onde eu queria estar. E agora estava tudo bem, porque eu era livre pra ser sua. Nada mais ia me segurar e eu sabia disso. Estava ali pra me jogar e queria tanto que ele soubesse, mas não ousei falar nada. Deixei que o tempo dissesse, que minhas ações mostrassem. Eu finalmente estava pronta pra dar a cara a tapa de novo, sem muito cuidado, sem me preocupar porque eu sabia que aguentaria qualquer coisa dali pra frente. Eu me sentia eu mesma novamente, eu estava viva novamente. Ergui o copo que me esperava:
-A nós.
-A nós - ele respondeu.