quinta-feira, 27 de setembro de 2012

citação





"if you’re dating a writer and they don’t write about you - whether it’s good or bad - then they don’t love you. they just don’t. writers fall in love with the people we find inspiring."

domingo, 23 de setembro de 2012

brasa que vira cinza


         Quando a apatia domina os outros sentimentos, a gente vive sem perceber. Chegava em casa só queria um cigarro. Cinza já era o mundo e eu queria mais um pouco entre meus dedos e no meu pulmão. Cinza era o meu constante estado de espírito.
         Eu tinha ido a um jantar. Na mesa do lado, um cara fumava o tempo inteiro e aquele cheiro me enchia de vontade. Falando de amor, o cigarro compartilhava os meus pensamentos. A gente fala de todas as merdas que já passou, abaixa a cabeça e dá uma olhada pra brasa queimando na mão, como se ela soubesse o que a gente tá pensando. Eu tentava dormir e pensava nele. Parecia até meu novo amor. E era aquele tipo de amor que ou as pessoas te discriminam,  ou te incentivam, como se soubessem que aquilo era minha fraqueza patética.
         Parar de fumar é apenas um dos motivos pra voltar. Os outros são sempre os mesmos, tempos difíceis, falta de grana, relaxar um pouquinho. Você até tenta olhar pelo lado positivo, tenta sentir outras coisas, mas o cinza vai transformando as outras cores. Quando a gente percebe tá dominado por aquilo que antes era brasa, que brilhava muito, e que agora é cinza. Porque quando a apatia domina os outros sentimentos, a gente vive sem perceber.

sábado, 22 de setembro de 2012

lírios


Eu criei um ritual. Todo dia, ao chegar em casa, eu puxava o vaso de lírios e cheirava por alguns segundos as flores. Não sabia bem explicar por quê eu fazia isso, e era automático. Me inebriava com o cheiro das minhas flores preferidas, pois sabia que elas não iam durar pra sempre. E não duraram.
Eu via um pouco delas morrer todo dia, assim como vi muitos desamores. O que são flores pra se alegrar quando se tem memória. Eu lembro do que aconteceu e vou continuar lembrando, assim como o vaso de flores. Por um lado, me fazia bem ver que a planta estava morrendo. A evidência do nosso fracasso daqui alguns dias não estaria mais na mesa de jantar, impregnando a casa com cheiro do que passou. Veja bem, não estou matando a pobrezinha, estou deixando ela seguir seu curso, assim como seguimos o nosso.
         A diferença entre o que tivemos e a planta é que, quando ela morreu, foi para o lixo. Lembranças, por mais que se queira, é impossível ver-se livre. Sabe quando a gente sente o cheiro de algo familiar e de repente, vem várias imagens na cabeça? Lírios são o nosso tempo, que passou, pereceu, e que por mais que tenham seguido o curso natural das coisas, vão sempre lembrar o eu e você que passamos. E nada mais.

escrito de manhã


         Eu bebia demais. Tinha voltado a fumar e meu pulmão não andava aguentando a pressão. Já quase não comia, estava ficando magra. O que tinha dentro transparecia na carcaça. E não foi por desleixo, ou falta de amor, veja, eu tentava me cuidar. Ia no salão, pintava o cabelo, me arrumava e tentava colocar uma cara feliz, de que nada me incomodava. Mas por dentro, aquela coisa que eu prendia dentro da jaula, gritava, rugia.
         Eu saia pra tentar distrair a cabeça e caia na mesma armadilha. Sabe aquela paixão avassaladora, que te fode e vc acaba perdoando e esquecendo tudo o que você passou, em prol da relação? Era o meu relacionamento com o copo. Toda manhã era uma dor de cabeça, de estômago, psicológica. Eu fazia a retrospectiva e era a mesma coisa: dormir dentro do carro, escutar músicas depressivas, chorar, me sentir um lixo. E eu não controlava, era algo que ficava latente e uma hora explodia.
         Comecei a ler Bukowski e nunca me identifiquei tanto com um homem. Aquela decadência era sem igual. Uma casa com latas e garrafas por tudo quanto é lado, aquela apatia... era tudo o que eu tinha, não materializado, mas dentro de mim. E eu não conseguia mais controlar.