sábado, 22 de setembro de 2012

lírios


Eu criei um ritual. Todo dia, ao chegar em casa, eu puxava o vaso de lírios e cheirava por alguns segundos as flores. Não sabia bem explicar por quê eu fazia isso, e era automático. Me inebriava com o cheiro das minhas flores preferidas, pois sabia que elas não iam durar pra sempre. E não duraram.
Eu via um pouco delas morrer todo dia, assim como vi muitos desamores. O que são flores pra se alegrar quando se tem memória. Eu lembro do que aconteceu e vou continuar lembrando, assim como o vaso de flores. Por um lado, me fazia bem ver que a planta estava morrendo. A evidência do nosso fracasso daqui alguns dias não estaria mais na mesa de jantar, impregnando a casa com cheiro do que passou. Veja bem, não estou matando a pobrezinha, estou deixando ela seguir seu curso, assim como seguimos o nosso.
         A diferença entre o que tivemos e a planta é que, quando ela morreu, foi para o lixo. Lembranças, por mais que se queira, é impossível ver-se livre. Sabe quando a gente sente o cheiro de algo familiar e de repente, vem várias imagens na cabeça? Lírios são o nosso tempo, que passou, pereceu, e que por mais que tenham seguido o curso natural das coisas, vão sempre lembrar o eu e você que passamos. E nada mais.

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