terça-feira, 13 de novembro de 2012

dor


Sabe aquilo que dizem sobre “write drunk, edit sober”? O meu lema é outro. O meu lema é escreva quando você estiver louco de dor, pois será exatamente aquilo que você está sentindo. Eu não sei o porquê, eu continuo escrevendo sobre os sentimentos ruins que as pessoas me provocam. Talvez nem sejam elas que provocam, deve estar tudo guardado aqui dentro, elas só acendem o fogo pra que esses sentimentos entrem em ebulição.
Eu paro pra pensar se as pessoas merecem que eu me sinta tão mal por elas. Eu coloco em primeiro lugar quem me usa como carta reserva. “Ok, se tudo der errado, você está dentro” é o que eu escuto alguns deles dizerem. Quando tá tudo uma merda, pelo menos, eu sirvo pra alguma coisa. Pra escutar, dar conselhos sinceros, ser eu mesma, aquela que vai fazer piada quando você tiver chorando. Depois do uso, direto pra pilha de descarte. Ou então pra lista de ligações ocasionais. Parece drama, mas como eu disse, escreva quando louco de dor, mesmo que cause efeitos colaterais. Não dá pra simplesmente ficar ignorando o que a gente sente.
Ai me dizem “Ah, mas você também não é trigo limpo”. Ok, concordo. Tenho as minhas intolerâncias, as minhas deficiências, quem não tem? Me desculpe se eu não consigo tolerar não ser prioridade na vida de pessoas que são na minha. Apesar de tudo, eu tenho um consolo: quando não tiver mais eu, louca de dor eu vou rir, vendo quem gostaria de ter me dado mais valor, sofrendo com a minha falta. E ai, novamente eu vou escrever.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

sonho / carta / telefonema



Eu pego o telefone e te ligo, mesmo depois de ter te mostrado a ferida. Me pego pensando, antes de dizer qualquer palavra, que eu sempre me sinto como um bicho machucado, que se esconde para lamber os machucados, aqueles que quando eu te mostro, na tentativa de ser sincera e me mostrar, você joga sal. Eu fujo de você querendo estar ao seu lado. Eu digo alô e você está ocupado. Em alguma roda social, claro, vestindo aquela fantasia que você não tira pra ninguém a não ser pra mim.
Minha primeira reação é ficar irritada, claro. Tempo para tudo e para todos menos pra mim. Sigo em frente, eu quero ceder as pequenas coisas, mesmo sabendo que isso não existe. Tudo bem, eu pergunto. Tudo, você responde, com ar de “tenho a vida mais interessante do mundo”. Eu estou melhor, mesmo a briga não tendo passado, mesmo com tudo que está acontecendo, obrigada por perguntar, eu penso. O que ia seguir, dependia desse momento. Mais uma vez, não dá mais. Olha, queria conversar, não tá dando mais, eu digo. Você não me entende, não consegue compreender que eu estou passando um período difícil, não preciso de mais estress. Eu fico chateada quando vejo que você só comparece quando o barco está afundando. Tenta tirar a água com balde, coloca o dedo no furo, tenta continuar remando, e simplesmente esquece do defeito, como se ele magicamente sumisse. Você tira o dedo, que foi a única coisa que você deu pra resolver o problema, acha que tudo está consertado. Mas o barco afunda de novo.
Veja bem, eu continuo, não é que eu coloque a culpa toda em você. Parece tão difícil pra você quanto pra mim, nossa grande diferença é que eu não tenho medo do que eu sou. Você busca a perfeição, se sente um monstro quando erra. Talvez você seja mesmo. Estou divagando, mas o que eu quero dizer é que eu não aguento mais sal nas minhas feridas abertas. Eu quero amor, quero atenção, pra quem sempre é forte, dói dizer isso. E talvez você não tenha isso pra me dar, mesmo insistindo que me quer e que quer continuar tentando. Tentando o que, eu te pergunto, ouvindo só o silêncio do outro lado. Tentando me matar? Tentando me colocar louca? Louca de dor, de ciúmes, de tristeza, por tudo que você faz pelos outros, todos, e não faz por mim. Me sinto acamada. Quebrada. E sim, eu preciso de ajuda, mas não quero mais a sua.
Todo o silêncio me enlouquecia. Depois de tudo você não tem nada pra dizer? Um mudo. Não vai gritar, nem ir embora dessa vez, surpreendentemente. Ainda bem que a gente tá tendo essa conversa por telefone, assim você não pode me enclausurar em lugar nenhum. Pausa. Eu realmente te queria. Te quero. Dói muito que você não tem ideia. Penso que eu vou embora, big city dreams, sem você perto, com você muito longe. Dá um medo imenso. Não sei por quê, já que mesmo perto, você continua longe. Muito longe pra falar a verdade. O que eu estou tentando te dizer esse tempo todo é que não dá mais pra tentar e eu estou sem norte. Sem rumo nenhum.
Ouço um estalo. Começa a chover. Perco o foco. Fecho o computador e paro de escrever.

devaneios

Mais um dia que eu espero as coisas acontecerem. Aquela ligação nunca vem, aquele bom dia não se faz. O erro é esperar de todas as pessoas da minha vida, sem exceção, que elas façam por mim o que eu faria por elas. Como lidar com a verdade se os rostos estão sempre mascarados? Eu me vejo em um baile, todas aquelas plumagens e cores lindas, eu sei o que elas escondem. Ninguém sabe o meu rosto, sabe quem eu sou. Sozinha no meu quarto eu ouço o infinito pensando que na verdade tudo é finito. E me dá saudade, me dá ânsia, mas me dá medo e me dá nojo. Procuro um farol tendo vivido sem um a minha vida toda, cobrando de mim mesma não fazer confusão entre lampejo e luz. Desculpa, não consigo.

domingo, 4 de novembro de 2012

o caminho


Se você olhar bem pra um céu cinza, sempre dar pra ver um pouco de azul e vice-versa. Eu tava aqui deitada na minha cama, pensando em como eu não consigo mais lidar com certas coisas que andam acontecendo. Eu percebo que eu sempre estou atrás de alguém que me entenda, que consiga ler a minha mente. Vivo constantemente frustrada por não achar ninguém que tenha esse dom. Nesse meio tempo, eu vivo por ai, enlouquecendo algumas pessoas com esse meu talento de tirar os outros do sério, de criar truques e armadilhas e observar com sadismo a presa que eu capturei, que simplesmente não conseguiu escapar do que eu criei.
Há dias de caça e há dias de caçador eles dizem. Eu acho que só há o dia de caçadores. Eu queria saciar o meu sadismo me frustrando. A caça nunca foi o outro, sempre foi eu mesma. Desesperadamente eu corria atrás de alguém que pudesse dizer “eu te entendo” pra que eu pudesse dizer “então me explica”. Me explica porque não dá mais.
A culpa não é de ninguém, porque não existe culpa. Seguindo a linha de clichês, não há como se achar no labirinto dos outros, só no nosso próprio. Nas curvas alheias só dá pra ser guiado. E pra andar em outras ruas, preciso me achar nas minhas primeiro.

sábado, 3 de novembro de 2012

o tic-tac do gato


Era impressionante que todas as vezes que a gente brigava aquele gato da sorte chinês que você me deu começava a fazer um barulho irritante. Ele balançava o braço mandando prosperidade pra mim o dia inteiro, sem fazer um ruído, mas bastava a gente brigar pra que começasse a estalar aquela coisa. Era igual um tic-tac de relógio, muito alto e muito irritante. Eu chegava puta, chorando, entrava no meu quarto batia a porta e logo começava aquele “tec tec” enlouquecedor.
Eu não sei se tem alguma ligação, mas é muita coincidência pra um universo só. Era como se o gato me lembrasse de você, como se você ainda estivesse presente mesmo naquela hora em que eu queria que você desaparecesse do mundo. Como se fosse um tipo de magia que te fizesse presente. O que me irritava mais era que a coisa só parava de fazer aquele barulho se eu levantasse, pegasse o maldito gato que eu queria atirar contra a parede e sacudisse, que nem a gente faz com uma coisa que não funciona, esperando que aquele parafuso solto volte pro lugar com uma sacudida mágica.
Bem que poderia, de fato, funcionar essa técnica. Toda vez que a gente achasse que algo não estava funcionando direito era só dar uma sacudidela e tudo voltava a funcionar perfeitamente, como era antes. Acho que o gato era a materialização daquilo que eu queria dar uma sacudida pra que voltasse a funcionar. O nosso parafuso caiu e eu não conseguia acertar aquele tic-tac que não tinha compasso quando a gente estava junto. Sei lá, acho que as vezes as coisas saem do lugar e não voltam, ficam sem jeito de consertar.