terça-feira, 19 de agosto de 2014

você.

Hoje eu acordei tomada, domada, enebriada por todas essas coisas que você me faz sentir. Olhei pro lado e só tinha travesseiro. O espaço que sobrava ao meu redor queimava. Queimava de saudade, de amor, da sua falta. O espaço tinha quase o contorno do seu corpo, só esperando você encaixar. Quando você volta hein? Não quero mais viver sem ele, pensei. Levantei. Trabalhar, comer, respirar você. Hoje foi um desses dias que eu só fiz você. Voltei pra casa, cantarolando uma música de amor, intoxicada pela tristeza da sua falta e pela felicidade de ter deixado meu coração com você. Continuei cantando a música, acabando com metade de mim e explodindo a outra metade de amor. Esse lance de te amar tanto me dá um medo. Começo a misturar minhas loucuras com a realidade, passando e repassando seu rosto na minha cabeça, me doendo o coração em pensar que não vou te ver, virando mil confetes por pensar na próxima viagem. Nessa eu fico, alternando entre carnaval e quarta-feira de cinzas, tudo num dia só. Inevitavelmente te amando demais, mais do que posso, mais do que eu quero, mais do que o meu peito comporta. "Mas eu preciso dizer que eu te amo, te ganhar ou perder, sem engano"...

terça-feira, 5 de agosto de 2014

metade da laranja

Já ouvi muitas vezes essa história de que todo mundo tem sua metade da laranja, toda panela tem sua tampa, todo chinelo véio tem um pé pra calçar. Vou dizer que já experimentei umas tampas pequenas demais, provei algumas laranjas azedas e calcei alguns chinelos que não me serviam.
Também dizem que os opostos se atraem, mas já estive com gente diferente demais de mim pra saber que as pessoas precisam ser, pelo menos em alguns níveis, compatíveis para poderem ficarem juntas.
Como você gosta do café de manhã, que bagunça te tira do sério, que você bebe demais, que figa indignado com injustiças, que tem alergia a ácido acetilsalicílico, que adora fazer nada de vez em quando e que topa ir ver filmes ruins, desde que esteja junto de quem gosta. Enfim, uma metade de laranja que busca outra que não azede demais o suco, entende?
Minha vida nunca esteve tão boa. Não gosto nem de falar porque tenho a sensação que vai desandar. Amo meu trabalho, minha casa, meus amigos, minha vida. Só faltava a minha metade. Aquele que vai comigo ver o mundo, ouvir músicas, fazer sexo enlouquecidamente, aguentar meus gatos dormindo na cama, ver minha série preferida somente porque eu disse que é minha preferida, caminhar de mão dada comigo no frio e no calor, simplesmente porque não quer viver sem segura-la.
Não muito longe de mim, eu arrisco dizer que achei minha metade. Pode ser paixão, loucura, borderline, não importa. É sentimento e é tão forte que é quase palpável. Escrevo sobre ele e isso já prova muita coisa. Já pensou perder isso que é tão raro no mundo? Meu olho lacrimeja de pensar, meu subconsciente grita de terror em forma de pesadelo. Quero segurar a tua mão também, no inverno, verão, primavera e outono, em Porto Alegre, São Paulo, Nova York ou Japão, seja suando ou congelando, chuva ou sol, no parque, na rua, na cama. Não vou soltar.
Se azedar um pouco, a gente põe açúcar, se ficar doce demais, a gente põe um pouquinho de água, mas fica aqui, tomando um suco comigo, porque realmente tá bom demais.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

para o meu coração

Coração,

Tão bobinho, acreditando em tudo que te falam, em todas as promessas e em todo julgamento que existe por aqui, por lá e todos os outros cantos. Quantas vezes já te disseram ser ingênuo? E você é mesmo. Adora botar banca de durão, de cão de briga, mas se derrete todo no primeiro sinal de amor. Fantasia casamentos, filhos, aposentadoria e todas as viagens depois dos filhos criados. Até um tempo atrás você não queria nem ter filhos! Agora anda por ai, olhando crianças na rua e babando, escolhendo nomes bonitos para sua prole.
Você não cansa de ouvir que se apaixona fácil? Difícil mesmo é desapaixonar né, coração. Isso sim dói. Mas os outros não sabem. Estão sempre falando do seu novo amor, com ar de fofoca da cidade. Mal sabem eles que você ama, e ama de verdade, com toda a dor e prazer que é amar alguém. Enquanto você chora de saudade e só pensa no ser amado, em cada esquina alguém aumenta um ponto desse conto.
Mas não importa, você sabe o que sente. E como sente né, coração? Bom seria sentir um pouquinho menos, para não existir tanta dor nesse prazer, tanta necessidade de estar junto, de verbalizar cada gotinha dessa cachoeira que corre dentro de você. De qualquer maneira, você segue, firme e forte, batendo, aguentando todo esse batidão de sentimentos, sendo bobinho e escutando as groselhas que falam por ai.
É isso mesmo, coração. Continue sendo você. Ah, se no mundo tivessem mais corações como você. As dores seriam apenas por amar e não dos desamores. Melhor seria que você não tivesse tido tantas decepções. Para bater um pouco menos calejado e se jogar com mais vontade dentro de toda essa paixão que pulsa dentro de você, não sentir tanto medo, não se sentir tão bobinho por acreditar em futuros apartamentos pintados em cores neutras e achar que isso realmente pode ser verdade. Seja bobinho, mas não seja tão duro com você. Vai viver, vai bater, coração. Deixa os outros falarem e acredita nas promessas. Se não forem verdade, você vai continuar batendo e acreditando no amor. É impossível mudar você, coração.

terça-feira, 22 de julho de 2014

a folhinha no banheiro

Eu acordei era umas dez e meia. O sol brilhava e eu sentia um puta inchaço no rosto, de toda a bebedeira do final de semana. A cama estava vazia, porém isso não era o que me incomodava. Gosto do espaço, mas faltava você no resto. Sua mala já tinha ido, sua bagunça, seu cheiro, sua presença. Ficou o vazio e os livros que você me deu em cima da mesa. Olhei pra eles feliz, pois sua letra estava em um deles. Olhei paras minhas unhas, que precisavam ser feitas e resolvi não fazer nada. Sua pele das noites passadas ainda estava debaixo delas.
Levantei e pensei em tomar um banho. Melhor não, queria você ainda em mim. Seu cheiro, suor e tudo mais. Você tinha ido, mas não te tirei do meu corpo. Olhei em volta, pensando que você poderia estar escondido. Era só imaginação. Dei um pulo no banheiro e lá estava: a minha folhinha do Seicho No Ie, virada por você, no dia de hoje. Dia 22, com uma mensagem motivacional, falando de amor, e uma foto da cidade de Goiás. "Poderia ser mais irônico? Acho que não..." pensei. Havia três meses que eu não virava aquela folhinha. Eu viro apenas quando me sinto inspirada, quando quero que algo mude na minha vida, achando que, de alguma forma, aquelas mensagens podem me ajudar.
Me arrumei, ainda tinha que trabalhar. Meu estômago roncava, ainda precisava comer. Olhei pela janela o sol brilhava, mas tudo parecia meio cinza. Arrumei a cama, a cozinha e a comida dos gatos. Antes de sair, entrei no banheiro para me olhar no espelho e lá estava a folhinha marcando dia 22. Ficaria presa nesse dia, até que você voltasse, para virar a folhinha pra mim e me inspirar um pouco mais.

terça-feira, 15 de julho de 2014

gosto

O meu telefone tocou. Era o número dele. Não sabia se atendia ou não. Deixei tocar, não queria decidir. Uma chamada perdida. Ele ligou novamente. Meu coração começou a pulsar mais forte. Eu queria falar com ele, mesmo depois de dias sem dar sinal de vida. Ele sumiu sem me dizer porquê, mas eu ainda lembrava dele como se tivesse saído da minha casa a dez minutos.

-Alô. (meu coração palpitava, tentando segurar a ansiedade)
-Oi, amor. Como você está? Que saudade...
-Tudo bem...
-Queria te encontrar, será que a gente podia tomar um café amanhã?
-Olha... Não sei se é uma boa ideia...
-Amor, eu sumi, eu sei. Ando muito ocupado com trabalho, com todos os convites sociais que eu PRECISO comparecer, não foi por querer, minha gatinha. Senti muito tua falta nesses dias...
-Sabe que existe algo mágico chamado mensagem de texto? É bem útil...
-Minha linda, você sabe como são as coisas, você sabe que não foi por querer, vai... Meu coração é teu...
-Não sei o que dizer... Eu estou muito ocupada essa semana...
-Passo na tua casa, então. Que tal? Levo um vinho, a gente ouve uma música e colocamos tudo em dia, eu prometo.
-Olha, você não tem nada comigo, não precisa me prometer nada.
-Gatinha, não faz assim. Você sabe que eu te amo...
Silêncio.
-Amanhã, na tua casa então, amor?
-Tudo bem. Até lá.
-Beijo, gatinha.
-Beijo.

Desliguei o telefone arrependida por ter caído nessa mais uma vez. Mas tenho na boca e na memória o permanente gosto dele. É inevitável.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

devaneios de something

Deitei na cama e coloquei Something pra tocar. Pensei em tudo que eu gostaria de ouvir naquele momento. Paixão nem sempre é algo confortável. Devo admitir que de vez em quando mais dói do que dá prazer. Faz parte e eu sempre fui um pouco masoquista, então aceito. Até gosto.
Não sei por onde você anda, mas com certeza por aí. O que será que você está fazendo agora? Será que pensa em mim? No fundo dessa cama, eu só penso em você. Você está quase materializado aqui do meu lado, na parede do quarto, sentado na cadeira ao lado da cama, no banheiro na cozinha. Você já tomou conta da minha casa, enquanto eu continuo aqui parada. Pensando bem, você tomou conta dos meus dias, das minhas noites e até dos meus sonhos. Não passo 10 minutos sem pensar em você. As vezes me irrito, digo pra você sair da minha cabeça, mas você não sai. Dominou até meu cérebro, que grita seu nome a cada conexão nervosa.
Você quer saber por que dói? Dói porque sempre doeu. Porque esse coração de meia tigela que eu ganhei quando nasci, a cada pulso, se abre um pouco mais. Será que o seu coração também se abre quando pulsa? Será que dói quando você pensa em mim? Dói de saudade, de amor, de paixão, de tesão? Eu não sei, não sei se um dia irei saber. De qualquer maneira, não me importo de sentir essa dor só, ela é minha.
Você continua por ai e eu por aqui. Acho que vou me levantar e tomar um analgésico, para aliviar um pouco a dor. Ouvi dizer que dorflex enfraquece o pulso do coração. Acho que vou tomar um desses.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

eu fico, tu ficas.

Você me disse FICA, eu disse fico. Mas e se você não ficar? Como eu fico? Eu fico, tu ficas. Pelo menos espero que sim.

domingo, 6 de julho de 2014

ligação

-Alô?
-Oi, sou eu.
-Ah, oi. E ai?
-To precisando conversar, será que você pode me encontrar?
-Não vai dar...
-Por que?
-Olha só, você não acha que tá sendo um pouco cara de pau, não? Você sempre foi cheio de razão, disse que não precisava de ninguém, que se sentia muito bem sozinho, que enjoava das pessoas fácil? Pois é, aparentemente sou assim também. Enjoei de você, peguei nojinho.
-Você não falaria assim se soubesse como eu to mal...
-Eu não to entendendo bem aonde você quer chegar. Você quer piedade? Caridade?
-Nunca imaginei você me dizendo isso.
-Sabe, as pessoas cansam. Até das que não fazem questão, como você. Nunca fez questão, eu também nunca insisti. No primeiro minuto que você tem um problema, corre pra pedir ajuda. No mínimo estranho, você há de concordar. Quem é o dono da razão e do mundo, tem, no mínimo, que ter bolas pra aguentar o que a vida manda.
-Você tá certa, não deveria ter ligado...
-Olha, se eu posso te falar algo que preste: chega dessa razão que você carrega sempre. Você é uma pessoa com muitas opiniões para pouca razão. Seja humilde. E realiza, a gente tá sozinho de qualquer jeito, afastando todos ou tendo muita gente ao redor. Aproveitando que tu ligou, faz algo que preste. Vai limpar a casa, ou levar teu cachorro pra passear. Não fica sem fazer nada, porque daí você tem essas idéias de girino, tipo me ligar.
-Não vou mais te ligar.
-Ótimo.
-Obrigada, tchau.
-Tchau.

o dia que meu coração abriu a boca

Eu cheguei e comigo veio a noite fria. Deitei na cama, sem tirar a roupa, como normalmente faço. Botei a mão no peito como para segurar ele de explodir em mil pedaços. Meu coração batia apressado. Como pode né? Tem gente que mexe com a gente, que faz a gente pensar que vai morrer, de felicidade, de tristeza, de saudade. Só conseguia pensar que saí do calor da cama e do abraço dele pra voltar sozinha pro frio.
Meu coração começou a tentar sair pela boca, como se tivesse vida própria. Senti como se fosse vomitar, abri a boca e ele saiu mancando um pouco. Sentou na cama do meu lado e me olhou sério. "Qual é que é menina? Você não cansou de me maltratar não? Você e aqueles outros lá já me deram muita porrada. To cansado. E ai você anda mil km só pra tentar me maltratar de novo. Eu to te avisando, um dia desses eu vou fugir e seu peito vai ficar vazio. É isso que você quer?" ele pausou, exausto. "Esse cara ai faz o teu tipo. Inteligente ele, gostei. Acho que pode até dar certo. Confesso que eu mesmo estou um pouco apaixonado por ele. Parece que ele gosta de você. Vê lá hein, menina. Eu não aguento mais um round não. Chega dessa queda livre. Esse outro ai que vive dentro da sua cabeça também, nem pra ajudar. E tem gente que acha ainda que cérebro também não se apaixona. Se apaixona e até demais. Aí começa a criar mil e uma justificativas para o amor dele. Pensando bem, esse Sr. Cérebro é meio estranho, gosta de debater com ele mesmo..." Eu continuei sem falar, não acreditando que meu coração tava sentado, de pernas cruzadas, do meu lado.
"Olha, vou voltar pro teu peito, mas por favor, chega de me foder." Ele caminhou, entrou na minha boca, desceu e voltou a bater normalmente. Eu me levantei e senti medo, que de repente se misturou com toda a saudade que eu já tava sentindo. Meu coração acelerou, entendendo que mais um round vinha por aí.

segunda-feira, 30 de junho de 2014

ressaca infinita

Entramos no seu apartamento escuro, bêbados, agarrados. Você já tinha desabotoado meu short e minha blusa, e eu sua camisa. Abri seu cinto grudada na sua boca. Estava frio mas eu estava quente, quase suando. Você também. Saímos nos arrastando pelas paredes e finalmente entramos no seu quarto. Você trancou a porta, me empurrou pra cama e veio por cima. Arrancou as peças que sobraram, as minhas e as suas. Puxou meu cabelo, disse que eu era linda, arrastando a boca no meu pescoço. Seu toque era de enlouquecer, firme, forte. Pirei e só deus sabe o quanto.
Acordei no outro dia numa puta ressaca. A ressaca do sucesso. De noite faríamos tudo de novo.

terça-feira, 24 de junho de 2014

sentir

Num daqueles dias em que eu só queria fugir, sentei no chão e comecei a pensar em como resolver tudo que estava na minha mente. Fui envolvida por um sentimento enorme de impotência, como se eu não conseguisse controlar o que acontecia ao meu redor. Me vi presa em uma rede de pesca, como uma pequena sardinha, capturada pelo navio pesqueiro desse mundão véio.
Essa onda de impotência explodiu em mim e eu capotei no desenrolar dela. As vezes as pessoas não entendem porquê a gente pira. Quem nunca se viu dentro de um turbilhão e/ou nunca se recuperou de um, não sabe o que é desespero. Aquele desespero que aperta no peito, que faz a gente querer simplesmente desligar, se sentir entorpecido, querer ser tomado por qualquer outra coisa que não seja aquilo.
Continuei sentada no chão, me sentindo presa. Presa naquele momento, tomada pela onda que quebrava em mim. Deixei acontecer, não havia mais nada a ser feito. Se temos que sentir, que seja.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

nós quatro

Você estava sentado em uma cadeira preta, com os braços amarrados para trás. Estava escuro, mas tinha claridade o suficiente para você enxergar a silhueta dela. O quarto só tinha uma cama, mas era mais do que o suficiente. Ela apareceu na porta do banheiro, usando uma lingerie preta, de renda, com ligas prendendo a meia. Era clichê, mas ela era muito sexy. Uma batida saia do som e ela começou a dançar. Movia os quadris melhor do que uma stripper, caminhava sexy até você. Ela passou devagar as mãos pelo seus ombros enquanto você a seguia com os olhos. Deu a volta na cadeira, abaixou um pouco o rosto e deixou os cabelos, longos e loiros, passarem na sua nuca. Você ensaiou um pulo, porém estava refém. Ela veio de costas, encostando o corpo contra suas costas e seus braços. Sentou no seu colo, te olhou fundo nos olhos e te vendou. Ela não queria que você visse, e sim, que sentisse. Em um movimento ensaiado, passou as mãos em suas pernas, de baixo para cima. Começou a te beijar nas coxas, pulou o meio, para te provocar. Beijou seu peito forte, te arranhando de leve. Você inclinava a cabeça para trás, como se implorasse para que ela te matasse logo.
Eu queria estar ali naquele quarto, quase te matando também. De prazer, de raiva, de amor. Resolvi não me torturar e fechei as cortinas do meu apartamento, peguei um copo de vinho e me embebedei. De amor, de raiva, de prazer, por nós quatro. Eu, você, a loira e o meu amor não correspondido.

domingo, 22 de junho de 2014

cena da madrugada

Ela caminhava pela rua. Meia calça, saia curta, uma blusa simples, casaco grosso. Toda de preto. Os cabelos estavam soltos, balançando no vento, compridos e loiros. O cabelo lembrava o verão, mas era um inverno pesado. Ela carregava uma cerveja na mão direita e um olhar duro no rosto. Sua maquiagem, perfeita, simples. Não sabiam de onde ela vinha, mas ela estava ali, andando em passos largos, fazendo barulho com a bota na pedra da calçada. Ela olhava em frente, como se estivesse sozinha, mas a rua estava lotada. O cheiro de cerveja e cigarro inundava a rua. Ela desviou de pessoas, mas seguiu firme seu caminho. Olhou pros dois lados, para atravessar a rua, bem perto de um carro. Ela era tão perfeita de frente, quanto de costas, caminhando para longe da multidão que tomava conta da madrugada.
Naquela noite, havia muita neblina, o ar estava muito úmido. Ela passou e continuou caminhando, sempre em frente. Virou a esquina e sumiu. Depois disso a vida mudou.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

sala, cozinha, cama, janela

Já estávamos juntos a seis horas. Eu tinha tirado um cochilo no colchão da sala e você ficou no telefone resolvendo problemas com clientes. Levantei devagar, olhei você sentado de costas, telefone na mão, de frente pro computador. Seu cabelo bagunçado é o que eu mais gosto.
Fui tomar um banho e trocar de roupa, tirar o vôo de mim. Sai de toalha, claro, pra você ver. "Tem uma cerveja, pra gente ir esquentando?"
Você me olhou atônito, sem se mover, sem piscar. Dois segundos depois, voltou a si. "Claro, vou pegar". Fui colocar minha roupa.
Bebemos aquela cerveja em silêncio, sentindo o escuro e a luz amarela da luminária tomando conta. "Mais uma?" "Claro" eu disse.
Você foi pra cozinha, eu fui atrás, mas você não viu. Fiquei te esperando bem perto, querendo que você tropeçasse em mim quando se virasse. Você tropeçou, quase caiu e eu também. Me abraçou e me segurou.
Você caiu na minha boca e eu na sua. Foi de leve, largou a cerveja no balcão, passou a mão no meu cabelo. Me beijou com mais força e eu fui junto. Passei a mão nas suas costas e senti sua nuca arrepiar. Gostei do seu gosto. Beijou meu pescoço e passou a mão na minha perna. Fiquei arrepiada e te arranhei de leve. Passei a mão no seu cabelo, pra deixar ele mais bagunçado. Naquela luz laranja você era lindo. Começamos a caminhar, como se estivéssemos dançando, em direção ao colchão da sala. Fui descendo de vagar, você veio junto. Aquele beijo tomou conta de nós dois, você em cima de mim, pesado, confortável. Me senti em paz.
A luz laranja apagou. Abri os olhos e olhei pela janela, já era dia. Mais uma noite sonhei com você.

domingo, 15 de junho de 2014

a noite do couvert

A gente saiu. Foi num desses restaurantes chiques da cidade. Claro que você ia pagar, não por machismo, mas porque eu to quebrada mesmo.
"Nada de restaurante exótico com comida crua" você disse. Começando a perceber que a gente não tem nada a ver, eu quase disse que não ia. Dei o benefício da dúvida.
Você me pegou em casa e a gente foi escutando um trance no caminho pro restaurante. Trance?? Puta que pariu, me mata agora.
Chegamos no restaurante e você ao invés de me levar pela mão, colocou a sua mão nas minhas costas, quase na minha bunda. Não importa quantas vezes a gente transou, por favor, não me apalpe em público.
Sentamos na mesa já posta, com várias taças e talheres que você nem sabe usar. Você riu, achando bobo o restaurante que você mesmo escolheu. Eu disfarcei.
O couvert chegou na nossa mesa, trazido pelo garçom, muito bem trajado. Eu, com fome, logo me servi. Você fez cerimônia para comer. Comer não pode, apalpar sim. As vezes não entendo a lógica das pessoas para certas coisas.
Pedimos um prato, eu brinquei com o saleiro e você me disse cheio de razão o quanto achava ridículo os protestos atuais. Eu preferi não discordar e dei mais uma garfada. Como você tem opiniões para uma pessoa tão sem razão.
Pedimos a conta. Você fez questão de pagar, claro. Eu deixei sem cerimônias.
Você queria um motel. Eu disse que estava cansada. "Meu dia foi longo, podemos combinar outro dia?" "Sem problemas, lindinha". Vou te mostrar o lindinha...
Eu desci do carro, entrei no prédio, subi os sete andares e entrei em casa. Tirei os sapatos, o casaco e o vestido. Sentei na cama. Pensei. Acho que teria sido mais feliz no espetinho da esquina. Nunca mais te liguei.

crush

Eu sou assim, um pouco apaixonante e muito apaixonada. Tudo que eu faço é sem meio termo, inclusive gostar das pessoas. Uma crush vira um crash. E eu não confio em mim para gostar de você. Porque eu também sei ser envolvente. Você vai querer se envolver. Eu vou ficar com o pé atrás. Vou dizer que não, que está muito cedo. Você vai me convencer que não. E ai, eu vou te amar e te amar e te amar e de repente! Crash.

carta aberta

Eu sabia que esse dia iria chegar. O dia que eu iria desentalar tudo que ficou na garganta. Bem, ele ainda de fato não chegou, mas quem sabe seja hoje o dia de tirar um pouco do peso do que passou, pra quem sabe me trazer um pouco mais de vida.
Eu mudei e com certeza muita coisa também mudou em outros lugares. Amigos que eu achei que seriam para sempre, bem, eles não foram. Na verdade não chegaram nem perto, porque uns nem se dignaram de dizer que estão vivos. Tudo bem, eu ainda tenho facebook e desses eu ainda sei um pouco do que anda acontecendo. Os que eu não tenho no facebook, bem, esses eu realmente não sei mais nada além dos meus desejos pessoais para eles, já que hoje só se encontram em páginas do passado.
Sonhei com uma dessas pessoas noite passada. Ela tinha um namorado cretino e continuava cretina também. Acho que algumas coisas simplesmente não mudam nem em sonho. Tem outros que ainda tem contato com pessoas que eu mantenho contato. Não que eu saiba alguma coisa da vida deles, mas eu espero que estejam bem. Sim, eu sou louca e vocês também, mas infelizmente eu só consigo ver isso agora. Acho que as vezes quando ficamos muito perto, a gente acaba perdendo a visão geral da coisa. Hoje, bem de longe, eu vejo os erros que essas páginas da minha vida foram. Desculpem a reminiscência nessas histórias, mas eu não consigo me controlar. O que eu quero dizer para esses é que graças a deus acabou. E não, não foi bom.
O último, ao inverso, esteve sempre certo. Inclusive nos diagnósticos, mas isso é uma outra conversa. Acho que já passou tanto tempo que eu já nem me lembro direito. E não necessariamente foi bom, pelo pouco que eu me lembro. Sobre esse de fato eu não sei nada e nem quero, mas fica o meu obrigada. O meu obrigada por detectar esse off diferente do meu cérebro, que hoje é um dos meus maiores tesouros, é o que me faz diferente de todo o resto do mundo. Talvez seja até o que me faz um pouco mais interessante do que os demais. É o que me faz agradecer por não ter mais por perto os que não sabiam conviver com isso e exatamente o que me fez ir embora. Eu fui, a vida não ficou melhor, mas eu fui né? Eu aceitei o risco.
E vocês, o que vocês fizeram? Vou continuar aqui olhando o facebook, e aos que não olho, o resto.

no consultório

Muitos dias eu me pego querendo não sentir nada, ficar no marasmo. Esses dias alguém me disse que, pelo o que eu dizia sobre as minhas perspectivas, eu já estava parada. Um cérebro que não para, que até dormindo fala, como pode pensar, pensar e pensar e não concluir nada?
De vez em quando eu fico muito consciente das coisas que falo. Eu cozinho bem, eu escrevo bem, eu canto bem, falo outra língua bem. Será? Quando metaforicamente (ou não) saio do meu corpo e me vejo e me ouço dizendo essas coisas eu sempre duvido. Porque talvez eu fale demais. Pensar também não adianta de nada esses dias.
Uma anestesia, por favor.