segunda-feira, 30 de junho de 2014

ressaca infinita

Entramos no seu apartamento escuro, bêbados, agarrados. Você já tinha desabotoado meu short e minha blusa, e eu sua camisa. Abri seu cinto grudada na sua boca. Estava frio mas eu estava quente, quase suando. Você também. Saímos nos arrastando pelas paredes e finalmente entramos no seu quarto. Você trancou a porta, me empurrou pra cama e veio por cima. Arrancou as peças que sobraram, as minhas e as suas. Puxou meu cabelo, disse que eu era linda, arrastando a boca no meu pescoço. Seu toque era de enlouquecer, firme, forte. Pirei e só deus sabe o quanto.
Acordei no outro dia numa puta ressaca. A ressaca do sucesso. De noite faríamos tudo de novo.

terça-feira, 24 de junho de 2014

sentir

Num daqueles dias em que eu só queria fugir, sentei no chão e comecei a pensar em como resolver tudo que estava na minha mente. Fui envolvida por um sentimento enorme de impotência, como se eu não conseguisse controlar o que acontecia ao meu redor. Me vi presa em uma rede de pesca, como uma pequena sardinha, capturada pelo navio pesqueiro desse mundão véio.
Essa onda de impotência explodiu em mim e eu capotei no desenrolar dela. As vezes as pessoas não entendem porquê a gente pira. Quem nunca se viu dentro de um turbilhão e/ou nunca se recuperou de um, não sabe o que é desespero. Aquele desespero que aperta no peito, que faz a gente querer simplesmente desligar, se sentir entorpecido, querer ser tomado por qualquer outra coisa que não seja aquilo.
Continuei sentada no chão, me sentindo presa. Presa naquele momento, tomada pela onda que quebrava em mim. Deixei acontecer, não havia mais nada a ser feito. Se temos que sentir, que seja.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

nós quatro

Você estava sentado em uma cadeira preta, com os braços amarrados para trás. Estava escuro, mas tinha claridade o suficiente para você enxergar a silhueta dela. O quarto só tinha uma cama, mas era mais do que o suficiente. Ela apareceu na porta do banheiro, usando uma lingerie preta, de renda, com ligas prendendo a meia. Era clichê, mas ela era muito sexy. Uma batida saia do som e ela começou a dançar. Movia os quadris melhor do que uma stripper, caminhava sexy até você. Ela passou devagar as mãos pelo seus ombros enquanto você a seguia com os olhos. Deu a volta na cadeira, abaixou um pouco o rosto e deixou os cabelos, longos e loiros, passarem na sua nuca. Você ensaiou um pulo, porém estava refém. Ela veio de costas, encostando o corpo contra suas costas e seus braços. Sentou no seu colo, te olhou fundo nos olhos e te vendou. Ela não queria que você visse, e sim, que sentisse. Em um movimento ensaiado, passou as mãos em suas pernas, de baixo para cima. Começou a te beijar nas coxas, pulou o meio, para te provocar. Beijou seu peito forte, te arranhando de leve. Você inclinava a cabeça para trás, como se implorasse para que ela te matasse logo.
Eu queria estar ali naquele quarto, quase te matando também. De prazer, de raiva, de amor. Resolvi não me torturar e fechei as cortinas do meu apartamento, peguei um copo de vinho e me embebedei. De amor, de raiva, de prazer, por nós quatro. Eu, você, a loira e o meu amor não correspondido.

domingo, 22 de junho de 2014

cena da madrugada

Ela caminhava pela rua. Meia calça, saia curta, uma blusa simples, casaco grosso. Toda de preto. Os cabelos estavam soltos, balançando no vento, compridos e loiros. O cabelo lembrava o verão, mas era um inverno pesado. Ela carregava uma cerveja na mão direita e um olhar duro no rosto. Sua maquiagem, perfeita, simples. Não sabiam de onde ela vinha, mas ela estava ali, andando em passos largos, fazendo barulho com a bota na pedra da calçada. Ela olhava em frente, como se estivesse sozinha, mas a rua estava lotada. O cheiro de cerveja e cigarro inundava a rua. Ela desviou de pessoas, mas seguiu firme seu caminho. Olhou pros dois lados, para atravessar a rua, bem perto de um carro. Ela era tão perfeita de frente, quanto de costas, caminhando para longe da multidão que tomava conta da madrugada.
Naquela noite, havia muita neblina, o ar estava muito úmido. Ela passou e continuou caminhando, sempre em frente. Virou a esquina e sumiu. Depois disso a vida mudou.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

sala, cozinha, cama, janela

Já estávamos juntos a seis horas. Eu tinha tirado um cochilo no colchão da sala e você ficou no telefone resolvendo problemas com clientes. Levantei devagar, olhei você sentado de costas, telefone na mão, de frente pro computador. Seu cabelo bagunçado é o que eu mais gosto.
Fui tomar um banho e trocar de roupa, tirar o vôo de mim. Sai de toalha, claro, pra você ver. "Tem uma cerveja, pra gente ir esquentando?"
Você me olhou atônito, sem se mover, sem piscar. Dois segundos depois, voltou a si. "Claro, vou pegar". Fui colocar minha roupa.
Bebemos aquela cerveja em silêncio, sentindo o escuro e a luz amarela da luminária tomando conta. "Mais uma?" "Claro" eu disse.
Você foi pra cozinha, eu fui atrás, mas você não viu. Fiquei te esperando bem perto, querendo que você tropeçasse em mim quando se virasse. Você tropeçou, quase caiu e eu também. Me abraçou e me segurou.
Você caiu na minha boca e eu na sua. Foi de leve, largou a cerveja no balcão, passou a mão no meu cabelo. Me beijou com mais força e eu fui junto. Passei a mão nas suas costas e senti sua nuca arrepiar. Gostei do seu gosto. Beijou meu pescoço e passou a mão na minha perna. Fiquei arrepiada e te arranhei de leve. Passei a mão no seu cabelo, pra deixar ele mais bagunçado. Naquela luz laranja você era lindo. Começamos a caminhar, como se estivéssemos dançando, em direção ao colchão da sala. Fui descendo de vagar, você veio junto. Aquele beijo tomou conta de nós dois, você em cima de mim, pesado, confortável. Me senti em paz.
A luz laranja apagou. Abri os olhos e olhei pela janela, já era dia. Mais uma noite sonhei com você.

domingo, 15 de junho de 2014

a noite do couvert

A gente saiu. Foi num desses restaurantes chiques da cidade. Claro que você ia pagar, não por machismo, mas porque eu to quebrada mesmo.
"Nada de restaurante exótico com comida crua" você disse. Começando a perceber que a gente não tem nada a ver, eu quase disse que não ia. Dei o benefício da dúvida.
Você me pegou em casa e a gente foi escutando um trance no caminho pro restaurante. Trance?? Puta que pariu, me mata agora.
Chegamos no restaurante e você ao invés de me levar pela mão, colocou a sua mão nas minhas costas, quase na minha bunda. Não importa quantas vezes a gente transou, por favor, não me apalpe em público.
Sentamos na mesa já posta, com várias taças e talheres que você nem sabe usar. Você riu, achando bobo o restaurante que você mesmo escolheu. Eu disfarcei.
O couvert chegou na nossa mesa, trazido pelo garçom, muito bem trajado. Eu, com fome, logo me servi. Você fez cerimônia para comer. Comer não pode, apalpar sim. As vezes não entendo a lógica das pessoas para certas coisas.
Pedimos um prato, eu brinquei com o saleiro e você me disse cheio de razão o quanto achava ridículo os protestos atuais. Eu preferi não discordar e dei mais uma garfada. Como você tem opiniões para uma pessoa tão sem razão.
Pedimos a conta. Você fez questão de pagar, claro. Eu deixei sem cerimônias.
Você queria um motel. Eu disse que estava cansada. "Meu dia foi longo, podemos combinar outro dia?" "Sem problemas, lindinha". Vou te mostrar o lindinha...
Eu desci do carro, entrei no prédio, subi os sete andares e entrei em casa. Tirei os sapatos, o casaco e o vestido. Sentei na cama. Pensei. Acho que teria sido mais feliz no espetinho da esquina. Nunca mais te liguei.

crush

Eu sou assim, um pouco apaixonante e muito apaixonada. Tudo que eu faço é sem meio termo, inclusive gostar das pessoas. Uma crush vira um crash. E eu não confio em mim para gostar de você. Porque eu também sei ser envolvente. Você vai querer se envolver. Eu vou ficar com o pé atrás. Vou dizer que não, que está muito cedo. Você vai me convencer que não. E ai, eu vou te amar e te amar e te amar e de repente! Crash.

carta aberta

Eu sabia que esse dia iria chegar. O dia que eu iria desentalar tudo que ficou na garganta. Bem, ele ainda de fato não chegou, mas quem sabe seja hoje o dia de tirar um pouco do peso do que passou, pra quem sabe me trazer um pouco mais de vida.
Eu mudei e com certeza muita coisa também mudou em outros lugares. Amigos que eu achei que seriam para sempre, bem, eles não foram. Na verdade não chegaram nem perto, porque uns nem se dignaram de dizer que estão vivos. Tudo bem, eu ainda tenho facebook e desses eu ainda sei um pouco do que anda acontecendo. Os que eu não tenho no facebook, bem, esses eu realmente não sei mais nada além dos meus desejos pessoais para eles, já que hoje só se encontram em páginas do passado.
Sonhei com uma dessas pessoas noite passada. Ela tinha um namorado cretino e continuava cretina também. Acho que algumas coisas simplesmente não mudam nem em sonho. Tem outros que ainda tem contato com pessoas que eu mantenho contato. Não que eu saiba alguma coisa da vida deles, mas eu espero que estejam bem. Sim, eu sou louca e vocês também, mas infelizmente eu só consigo ver isso agora. Acho que as vezes quando ficamos muito perto, a gente acaba perdendo a visão geral da coisa. Hoje, bem de longe, eu vejo os erros que essas páginas da minha vida foram. Desculpem a reminiscência nessas histórias, mas eu não consigo me controlar. O que eu quero dizer para esses é que graças a deus acabou. E não, não foi bom.
O último, ao inverso, esteve sempre certo. Inclusive nos diagnósticos, mas isso é uma outra conversa. Acho que já passou tanto tempo que eu já nem me lembro direito. E não necessariamente foi bom, pelo pouco que eu me lembro. Sobre esse de fato eu não sei nada e nem quero, mas fica o meu obrigada. O meu obrigada por detectar esse off diferente do meu cérebro, que hoje é um dos meus maiores tesouros, é o que me faz diferente de todo o resto do mundo. Talvez seja até o que me faz um pouco mais interessante do que os demais. É o que me faz agradecer por não ter mais por perto os que não sabiam conviver com isso e exatamente o que me fez ir embora. Eu fui, a vida não ficou melhor, mas eu fui né? Eu aceitei o risco.
E vocês, o que vocês fizeram? Vou continuar aqui olhando o facebook, e aos que não olho, o resto.

no consultório

Muitos dias eu me pego querendo não sentir nada, ficar no marasmo. Esses dias alguém me disse que, pelo o que eu dizia sobre as minhas perspectivas, eu já estava parada. Um cérebro que não para, que até dormindo fala, como pode pensar, pensar e pensar e não concluir nada?
De vez em quando eu fico muito consciente das coisas que falo. Eu cozinho bem, eu escrevo bem, eu canto bem, falo outra língua bem. Será? Quando metaforicamente (ou não) saio do meu corpo e me vejo e me ouço dizendo essas coisas eu sempre duvido. Porque talvez eu fale demais. Pensar também não adianta de nada esses dias.
Uma anestesia, por favor.