segunda-feira, 28 de julho de 2014

para o meu coração

Coração,

Tão bobinho, acreditando em tudo que te falam, em todas as promessas e em todo julgamento que existe por aqui, por lá e todos os outros cantos. Quantas vezes já te disseram ser ingênuo? E você é mesmo. Adora botar banca de durão, de cão de briga, mas se derrete todo no primeiro sinal de amor. Fantasia casamentos, filhos, aposentadoria e todas as viagens depois dos filhos criados. Até um tempo atrás você não queria nem ter filhos! Agora anda por ai, olhando crianças na rua e babando, escolhendo nomes bonitos para sua prole.
Você não cansa de ouvir que se apaixona fácil? Difícil mesmo é desapaixonar né, coração. Isso sim dói. Mas os outros não sabem. Estão sempre falando do seu novo amor, com ar de fofoca da cidade. Mal sabem eles que você ama, e ama de verdade, com toda a dor e prazer que é amar alguém. Enquanto você chora de saudade e só pensa no ser amado, em cada esquina alguém aumenta um ponto desse conto.
Mas não importa, você sabe o que sente. E como sente né, coração? Bom seria sentir um pouquinho menos, para não existir tanta dor nesse prazer, tanta necessidade de estar junto, de verbalizar cada gotinha dessa cachoeira que corre dentro de você. De qualquer maneira, você segue, firme e forte, batendo, aguentando todo esse batidão de sentimentos, sendo bobinho e escutando as groselhas que falam por ai.
É isso mesmo, coração. Continue sendo você. Ah, se no mundo tivessem mais corações como você. As dores seriam apenas por amar e não dos desamores. Melhor seria que você não tivesse tido tantas decepções. Para bater um pouco menos calejado e se jogar com mais vontade dentro de toda essa paixão que pulsa dentro de você, não sentir tanto medo, não se sentir tão bobinho por acreditar em futuros apartamentos pintados em cores neutras e achar que isso realmente pode ser verdade. Seja bobinho, mas não seja tão duro com você. Vai viver, vai bater, coração. Deixa os outros falarem e acredita nas promessas. Se não forem verdade, você vai continuar batendo e acreditando no amor. É impossível mudar você, coração.

terça-feira, 22 de julho de 2014

a folhinha no banheiro

Eu acordei era umas dez e meia. O sol brilhava e eu sentia um puta inchaço no rosto, de toda a bebedeira do final de semana. A cama estava vazia, porém isso não era o que me incomodava. Gosto do espaço, mas faltava você no resto. Sua mala já tinha ido, sua bagunça, seu cheiro, sua presença. Ficou o vazio e os livros que você me deu em cima da mesa. Olhei pra eles feliz, pois sua letra estava em um deles. Olhei paras minhas unhas, que precisavam ser feitas e resolvi não fazer nada. Sua pele das noites passadas ainda estava debaixo delas.
Levantei e pensei em tomar um banho. Melhor não, queria você ainda em mim. Seu cheiro, suor e tudo mais. Você tinha ido, mas não te tirei do meu corpo. Olhei em volta, pensando que você poderia estar escondido. Era só imaginação. Dei um pulo no banheiro e lá estava: a minha folhinha do Seicho No Ie, virada por você, no dia de hoje. Dia 22, com uma mensagem motivacional, falando de amor, e uma foto da cidade de Goiás. "Poderia ser mais irônico? Acho que não..." pensei. Havia três meses que eu não virava aquela folhinha. Eu viro apenas quando me sinto inspirada, quando quero que algo mude na minha vida, achando que, de alguma forma, aquelas mensagens podem me ajudar.
Me arrumei, ainda tinha que trabalhar. Meu estômago roncava, ainda precisava comer. Olhei pela janela o sol brilhava, mas tudo parecia meio cinza. Arrumei a cama, a cozinha e a comida dos gatos. Antes de sair, entrei no banheiro para me olhar no espelho e lá estava a folhinha marcando dia 22. Ficaria presa nesse dia, até que você voltasse, para virar a folhinha pra mim e me inspirar um pouco mais.

terça-feira, 15 de julho de 2014

gosto

O meu telefone tocou. Era o número dele. Não sabia se atendia ou não. Deixei tocar, não queria decidir. Uma chamada perdida. Ele ligou novamente. Meu coração começou a pulsar mais forte. Eu queria falar com ele, mesmo depois de dias sem dar sinal de vida. Ele sumiu sem me dizer porquê, mas eu ainda lembrava dele como se tivesse saído da minha casa a dez minutos.

-Alô. (meu coração palpitava, tentando segurar a ansiedade)
-Oi, amor. Como você está? Que saudade...
-Tudo bem...
-Queria te encontrar, será que a gente podia tomar um café amanhã?
-Olha... Não sei se é uma boa ideia...
-Amor, eu sumi, eu sei. Ando muito ocupado com trabalho, com todos os convites sociais que eu PRECISO comparecer, não foi por querer, minha gatinha. Senti muito tua falta nesses dias...
-Sabe que existe algo mágico chamado mensagem de texto? É bem útil...
-Minha linda, você sabe como são as coisas, você sabe que não foi por querer, vai... Meu coração é teu...
-Não sei o que dizer... Eu estou muito ocupada essa semana...
-Passo na tua casa, então. Que tal? Levo um vinho, a gente ouve uma música e colocamos tudo em dia, eu prometo.
-Olha, você não tem nada comigo, não precisa me prometer nada.
-Gatinha, não faz assim. Você sabe que eu te amo...
Silêncio.
-Amanhã, na tua casa então, amor?
-Tudo bem. Até lá.
-Beijo, gatinha.
-Beijo.

Desliguei o telefone arrependida por ter caído nessa mais uma vez. Mas tenho na boca e na memória o permanente gosto dele. É inevitável.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

devaneios de something

Deitei na cama e coloquei Something pra tocar. Pensei em tudo que eu gostaria de ouvir naquele momento. Paixão nem sempre é algo confortável. Devo admitir que de vez em quando mais dói do que dá prazer. Faz parte e eu sempre fui um pouco masoquista, então aceito. Até gosto.
Não sei por onde você anda, mas com certeza por aí. O que será que você está fazendo agora? Será que pensa em mim? No fundo dessa cama, eu só penso em você. Você está quase materializado aqui do meu lado, na parede do quarto, sentado na cadeira ao lado da cama, no banheiro na cozinha. Você já tomou conta da minha casa, enquanto eu continuo aqui parada. Pensando bem, você tomou conta dos meus dias, das minhas noites e até dos meus sonhos. Não passo 10 minutos sem pensar em você. As vezes me irrito, digo pra você sair da minha cabeça, mas você não sai. Dominou até meu cérebro, que grita seu nome a cada conexão nervosa.
Você quer saber por que dói? Dói porque sempre doeu. Porque esse coração de meia tigela que eu ganhei quando nasci, a cada pulso, se abre um pouco mais. Será que o seu coração também se abre quando pulsa? Será que dói quando você pensa em mim? Dói de saudade, de amor, de paixão, de tesão? Eu não sei, não sei se um dia irei saber. De qualquer maneira, não me importo de sentir essa dor só, ela é minha.
Você continua por ai e eu por aqui. Acho que vou me levantar e tomar um analgésico, para aliviar um pouco a dor. Ouvi dizer que dorflex enfraquece o pulso do coração. Acho que vou tomar um desses.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

eu fico, tu ficas.

Você me disse FICA, eu disse fico. Mas e se você não ficar? Como eu fico? Eu fico, tu ficas. Pelo menos espero que sim.

domingo, 6 de julho de 2014

ligação

-Alô?
-Oi, sou eu.
-Ah, oi. E ai?
-To precisando conversar, será que você pode me encontrar?
-Não vai dar...
-Por que?
-Olha só, você não acha que tá sendo um pouco cara de pau, não? Você sempre foi cheio de razão, disse que não precisava de ninguém, que se sentia muito bem sozinho, que enjoava das pessoas fácil? Pois é, aparentemente sou assim também. Enjoei de você, peguei nojinho.
-Você não falaria assim se soubesse como eu to mal...
-Eu não to entendendo bem aonde você quer chegar. Você quer piedade? Caridade?
-Nunca imaginei você me dizendo isso.
-Sabe, as pessoas cansam. Até das que não fazem questão, como você. Nunca fez questão, eu também nunca insisti. No primeiro minuto que você tem um problema, corre pra pedir ajuda. No mínimo estranho, você há de concordar. Quem é o dono da razão e do mundo, tem, no mínimo, que ter bolas pra aguentar o que a vida manda.
-Você tá certa, não deveria ter ligado...
-Olha, se eu posso te falar algo que preste: chega dessa razão que você carrega sempre. Você é uma pessoa com muitas opiniões para pouca razão. Seja humilde. E realiza, a gente tá sozinho de qualquer jeito, afastando todos ou tendo muita gente ao redor. Aproveitando que tu ligou, faz algo que preste. Vai limpar a casa, ou levar teu cachorro pra passear. Não fica sem fazer nada, porque daí você tem essas idéias de girino, tipo me ligar.
-Não vou mais te ligar.
-Ótimo.
-Obrigada, tchau.
-Tchau.

o dia que meu coração abriu a boca

Eu cheguei e comigo veio a noite fria. Deitei na cama, sem tirar a roupa, como normalmente faço. Botei a mão no peito como para segurar ele de explodir em mil pedaços. Meu coração batia apressado. Como pode né? Tem gente que mexe com a gente, que faz a gente pensar que vai morrer, de felicidade, de tristeza, de saudade. Só conseguia pensar que saí do calor da cama e do abraço dele pra voltar sozinha pro frio.
Meu coração começou a tentar sair pela boca, como se tivesse vida própria. Senti como se fosse vomitar, abri a boca e ele saiu mancando um pouco. Sentou na cama do meu lado e me olhou sério. "Qual é que é menina? Você não cansou de me maltratar não? Você e aqueles outros lá já me deram muita porrada. To cansado. E ai você anda mil km só pra tentar me maltratar de novo. Eu to te avisando, um dia desses eu vou fugir e seu peito vai ficar vazio. É isso que você quer?" ele pausou, exausto. "Esse cara ai faz o teu tipo. Inteligente ele, gostei. Acho que pode até dar certo. Confesso que eu mesmo estou um pouco apaixonado por ele. Parece que ele gosta de você. Vê lá hein, menina. Eu não aguento mais um round não. Chega dessa queda livre. Esse outro ai que vive dentro da sua cabeça também, nem pra ajudar. E tem gente que acha ainda que cérebro também não se apaixona. Se apaixona e até demais. Aí começa a criar mil e uma justificativas para o amor dele. Pensando bem, esse Sr. Cérebro é meio estranho, gosta de debater com ele mesmo..." Eu continuei sem falar, não acreditando que meu coração tava sentado, de pernas cruzadas, do meu lado.
"Olha, vou voltar pro teu peito, mas por favor, chega de me foder." Ele caminhou, entrou na minha boca, desceu e voltou a bater normalmente. Eu me levantei e senti medo, que de repente se misturou com toda a saudade que eu já tava sentindo. Meu coração acelerou, entendendo que mais um round vinha por aí.