domingo, 11 de setembro de 2016

cativeiro

Tudo começou assim, meio sem querer. Eu não queria nada disso tudo, nem você. Enroscada em seus lençóis, na sua cama, no meio de todas suas caixas, eu fiquei. Me sentia em casa, tendo minha escova de dente no seu banheiro, minhas manias espalhadas pelo seu quarto, pela sua casa. Eu estava lá mesmo quando não estava. E você me fazia sentir como se eu tivesse sentido de novo, não sei porquê. Eu não me sentia assim antes de você.
A gente brincava que seu quarto era um cativeiro. Talvez não fosse tão brincadeira assim, porque eu recolhi minhas coisas todas, mas parece que ainda to presa. Presa em tudo que a gente falou, aonde a gente deixou isso tudo chegar. Eu me culpo por isso. Meu coração não é pedra, é fogo, e você foi a causa de todo esse incêndio.
A vida é menos divertida do que você queria que ela parecesse, com suas constantes risadas, piadas e idiotices. Por um tempo, acreditei que a vida era leve de verdade. Eu achava que isso me tornava uma pessoa mais divertida, menos estressada, menos preocupada. Mas quem ri demais, esconde o desespero. Desespero em saber que nem tudo é brincadeira, nem tudo é agradável, nem tudo é riso. Agora, sozinha, eu vejo com mais clareza que, não, tudo não é riso. Meu olho cheio de água, minha cabeça confusa com todas as promessas que você fez e agora enfiou em uma caixa e despachou, como você tem costume de fazer.
Eu me amarrei na sua cama, na sua vida, achando que a gente tivesse meramente brincando com aquela dor que dá prazer, que faz a gente pedir mais. Eu amarrada ainda, você saiu e disse que se machucasse de verdade não conseguiria mais participar do jogo. E foi. E eu fiquei. Essa dor hedonista que você quer existe fora da cama? Na vida real eu não conheço, e já procurei bastante. Eu sou meio masoquista, você bem sabe.

Agora você sai pra rir, sacodir a poeira, lavar suas camisetas que tinham meu cheiro, como se simplesmente elas só estivessem usadas, nada que uma lavagem não resolva. As coisas não são tão simples pra mim. Talvez, pra me soltar, eu deva tirar algumas lições que você me ensinou: levanta, enfia um sorriso na cara, finge que nada aconteceu e segue a vida, atrás só daquilo que dá prazer, daquilo que não incomoda, daquilo que não dói a ponto de tirar pedaço. Eu, infelizmente, ainda não cheguei lá, mas eu vou. Perdi uns pedaços no meio do caminho, inclusive dessa vez. É bom que cicatriz endurece o couro. Acho que no fim, você me deu o que eu precisava.

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