terça-feira, 13 de setembro de 2016

Interfone

Cheguei em casa, mais ou menos dez da noite, cansada depois de 12 horas de trabalho. Tirei a roupa, tomei um banho, esquentei uma sopa. Fazia frio. Liguei a TV e deitei na minha cama, com o prato de sopa na mão, um pouco desanimada até mesmo pra comer, de tanto cansaço. O interfone tocou e eu assustei. Aquela merda passou quase um ano sem funcionar, tinha recentemente arrumado, não sabia nem como era o seu som. Fiquei um tempo parada, pensando que diabo era aquela barulho. Levantei um pouco atordoada, olhei pra parede, identificando de onde vinha o som. “Quem é o filho da puta que tá me ligando as 11 da noite...” pensei. Atendi:

-Alô.
-Oi, sou eu.
-Ah, oi. Fala.
-Abre aqui pra mim.
-Eu acabei de chegar em casa, to de pijama, um prato de sopa esfriando, to cansada. Não vai rolar.
-Eu te trouxe aquele café que tu gosta.
-Meu... Café as 11 da noite? Amanha eu tenho que estar de pé as 7. Não vou conseguir dormir se tomar café...
-Eu te trouxe outra coisa também.
-...
-Desce aqui pelo menos pra gente conversar...
-Tá.

Desci de pijama, só enfiei um blusão por cima. Tava frio pra caralho na rua e a minha rua era especialmente fria. Coincidências... Entrei no elevador sem saco. Abri a porta. Ele tava do lado de fora, com cara de cachorro de rua, pedindo pra entrar. Peguei minhas chaves e abri.

-Tu pegou as minhas chaves de volta, por isso não subi direto.
-Esse é exatamente o motivo pelo qual eu peguei tuas chaves. Tu não tinha que estar trabalhando?
-Pedi folga do bar hoje. To meio sem saco.
-Mas tu precisa da grana né... Como que tá a casa nova?
-Vazia. Mas paciência, tu me mandou embora...
-Foi melhor assim.

Ele me olhou, inclinou pra um beijo. Eu virei o rosto.

-Tá, me fala logo o que tu quer, eu preciso subir, quero comer, dormir, descansar. Alguns de nós trabalham, sem escolha de ficar de saco cheio.
-Por que tu tá assim? Tão fria? Eu ainda te amo sabe. Sinto tua falta todo dia. Quero ver os gatos, quero dormir contigo.
-Eu e tu... não dá mais... tu sabe disso. Chega de aparecer aqui em casa de noite... Não dá.
-Te trouxe esse imã de gato.
-Tu tá me escutando?
-To. Eu vou pra casa. Mas eu vou voltar aqui, eu não vou desistir assim. Me da um abraço.
Ele levantou, me puxou pra um abraço.

-E para de emagrecer. Tu vai ficar feia magrela.
-Aham.

Me desvencilhei, abri a porta pedindo pra ele sair com o olhar.

-Tchau, dorme bem – ele disse com um sorriso no rosto.

Subi me sentindo uma louca. Será que eu não falei nada? Será que ele tá surdo? Será que nunca vou conseguir terminar isso? Entrei em casa e cortei o fio do interfone. Nas semanas seguintes ele me mandou mensagem, ligou. Não respondi, não atendi. Um mês depois, vi ele de longe, num bar da minha rua. Ele me viu e virou a cara. Finalmente tinha terminado, mas eu estava triste. As coisas na vida as vezes têm que ser feitas de maneira drástica. Infelizmente.

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