domingo, 11 de setembro de 2016

natural high

Entrei no quarto, um cheiro e incenso pairava no ar. Você entrou na frente, caminhando com destreza de cego. Sabia exatamente onde estava cada livro jogado no chão, passando milímetros de distância de todos sem nunca os tocar. Um cobertor colorido escondia o sol que brilhava na rua. Para mim poderia ser 2 horas da tarde ou da manhã. Naquele momento, as horas não importavam. Você pegou minha mão e me guiou com a sua, me levando a seguir seus passos afim de manter o caos organizado que era aquele lugar.
Deitamos na cama, você tirou um baseado do bolso. O segundo que iriamos fumar naquela terça-feira. Quanto mais perto de você, mais chapada eu me sentia. Poderia ser a maconha, mas eu via claramente que parte era apenas sua presença. Acendemos, quietos, ouvindo só o barulho da erva queimar. O teto que eu encarava era o mesmo que você olhava durante suas crises existenciais. E eu estava ali encarando a minha. Será que eu deveria estar ali? Eu não sabia ao certo, fumava um pouco mais e as coisas cada vez ficavam mais distantes. Eu estava escapando no seu tapete mágico da realidade que tão desesperadamente eu tentava fugir.
Você passou a mão na minha barriga, delicadamente tirou minha blusa. Você era a personalização do entorpecente, excitante e sorrateiro, delicado na entrada e pesado na onda. Passei a mão pelas suas costas, seu cabelo e seu rosto. Me perguntava como alguém pode deixar outra pessoa drogada simplesmente pelo toque. Suas mãos, boca e todo o resto me percorria e eu aproveitava a brisa natural que eu sentia ao estar com você. O calor que o ventilador de teto tentava afastar era palpável enquanto estávamos abraçados.
Olhei novamente para o teto e me vi num reflexo que eu mesma traçava em minha cabeça. Minhas loucuras tão nítidas como uma imagem em HD. Olhei para o lado por um segundo, tentando voltar para a realidade e vi você como eu. Contemplando tudo aquilo que te pertence. Toda a luz e toda a sombra, que insistia em te deixar escuro como você me falava as vezes meio sem jeito. Mal conseguia você perceber que a minha estava bem na sua frente. Almas parecidas se atraem, seja para gerar mais claridade, seja para criar mais sombra. Ainda não sabia qual seria nosso resultado.

O alarme tocou, me puxando para a realidade como um buraco negro engole uma estrela. Fiquei sóbria de repente. Olhei no relógio e já eram quase 5 da tarde. O high que você me deu passou, assim como o do beck. Até a próxima dose, pensei. “Tenho que ir”, eu disse.

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