segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Verde


Tinha apenas uma meia luz e eu um copo na mão, o quinto da noite. Mas era cedo, umas três da manhã, e eu queria ficar mais anestesiada. O lugar estava cheio de gente e, pela bebida ou pelo meu estado de espírito, tudo se movia em slow motion. Meus amigos rindo, pessoas se beijando, um casal não muito longe brigando, gente dançando e eu, encostada na parede, absorta no meu mundo, no que eu sentia naquele momento. Entrei pra ouvir a música mais alto, sozinha. Estava escuro, as luzes piscavam, tinha um monte de gente, mas eu fechei os olhos e me imaginei sozinha. Achei um canto e fiquei escutando a musica com atenção, contando os beats como se viessem do meu peito. Senti um arrepio na nuca, como quando a gente pensa que tem um fantasma nas nossas costas. Abri os olhos e ele estava na minha frente, na parede oposta a que eu estava, dois olhos verdes, gigantescos, me olhando, estático. Olhei de volta, estática também. Ele atravessou todas as pessoas, envolvidas nos seus mundos, nem percebendo o que estava acontecendo entre nós dois. Pensei em sair correndo, mas não consegui me mexer. Ele chegou bem perto e eu pude perceber como seus olhos eram realmente lindos, um olhar que eu nunca vi antes na vida, que faz a gente refém. Que me fez refém. Me senti um pouco mais bêbada ao perceber o verde mais de perto. Não resisti, estava realmente desarmada enquanto ele tinha todas as armas estampadas em seu rosto. Foi devagar, chegando cada vez mais perto, quase encostando na minha boca. Fechei os olhos de novo e o copo caiu da minha mão. Senti toda a anestesia que buscava. Passei a mão na nuca dele, com a ponta dos dedos, descendo pras costas, abrindo minhas unhas, tentando tirar um pouco de pele, mesmo tendo a camiseta por cima. Aquele beijo pareceu durar horas, mas durou só alguns minutos, porque a música ainda era a mesma. Eu podia ficar pra sempre naquele momento, sentindo sua boca, sua língua, seus dentes mordendo de leve meu lábio, sua mão no meu cabelo, com tanta gentileza, mascarando o que sua boca me pedia. Abri os olhos e ele não estava mais lá. Olhei em volta e nada. Eu sonhei acordada? Virei pra sair e uma amiga falava comigo, mas eu só via a boca dela mexer, não escutava nada mais, nem a música. Eu não sentia mais nada. Paguei minha conta e fui embora. Quem sabe quando eu chegar em casa eu sonhe de novo com ele. É tudo que me resta.


Technicolor Beat - Oh Wonder

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