terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Tudo meu

E aí eu ouvi um barulho de pingos na minha janela e uma tempestade se formou lá fora, igual a que estava dentro de mim. Abri a janela e deixei a chuva molhar tudo. Ascendi um cigarro e vi meu quarto sendo tomado pela tempestade. Eu que queria destruir tudo, mas não tinha coragem. Nada disso era dela, era tudo meu. Sentei na cama molhada, tomei um gole da coca sem gás e contemplei o que eu tinha naquele momento: melancolia, igual ao dia armado na minha janela. Moro de frente a um prédio e algumas pessoas passavam nas janelas. Me vendo sentada de perna cruzada contemplando meu caos particular alagado, devem ter pensado que eu sou louca. Foda-se. Sortudo são eles que pegaram um pequeno momento da minha loucura sempre contida escapando. Eu sou boa demais em fingir sanidade e serenidade, apenas dois dos meus mecanismos de defesa. Queria eu ter a coragem de por tudo pra fora, chorar e gritar, dizer que vou embora pra quem eu mais amo, só pra ver se alguém me ajuda a sair do turbilhão da minha própria cabeça. Não liguei musica nenhuma, ouvi apenas uma sirene irritante que tocava na rua, o barulho dos carros molhando a calçada, a chuva ainda batendo em um dos vidros fechados. Sentia falta de ar, o peito apertar, mas nada disso era dela. Era tudo meu. Queria fugir, escapar, mas nada disso era dela. Eu queria era ir com ela. Ela que deveria estar fazendo o mesmo que eu, só que com um pouco mais de verdade. Meu cru só refletia no espelho e quando eu o via, corria rápido e botava numa caixa no fundo do peito. Talvez por isso eu quisesse desesperadamente ajudar quem se sente assim. Mas é tudo meu. Sempre foi tudo meu. E tinha tempo que eu não falava de mim.

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